A Maturidade a Favor de July Talk

foto por vanessa heins

Parece clichê afirmar isso, mas Pray for It, novo disco da banda canadense July Talk, não poderia ter sido lançado em qualquer outro momento de sua carreira. Seus dez anos na estrada foram responsáveis por uma obra que revela o quanto o quinteto ganhou maturidade não só no fazer música, mas em como pensar seus discos.

“Acho que quando entramos no estúdio agora temos um outro tipo de confiança, mas também de humildade”, contou Leah Fay ao Música Pavê, “há um novo nível de abertura para que as músicas se desenrolem naturalmente, sem tentarmos moldá-las como achamos inicialmente que elas deveriam ser”. “Com este álbum, não sabíamos qual seria a vibe da maioria dessas músicas até elas estarem gravadas”, comenta a compositora e vocalista, “é o tipo de coisa que só acontece quando você confia no processo, o que não acontecia no começo da carreira”.

Pray For It, com lançamento marcado para esta sexta (10), traz consigo também a maneira com que July Talk tem trabalhado temas delicados que os músicos observaram ao longo desses anos. “Escrevemos esse disco quando Trump se elegeu, quando aconteceu o Brexit, quando proibiram a entrada de pessoas de países muçulmanos nos EUA… o mundo estava ruindo já naquela época”, comenta Peter Dreimanis, “e as pessoas estavam sendo encorajadas a odiar, o que é algo assustador de se ver”, relembra Leah.

Peter conta que “muitas dessas músicas nasceram disso. The News, que Leah e Josh escreveram, é um bom retrato do que estamos vivendo, essa condição de estar sobrecarregado de informação. E há músicas como Friend of Mine, sobre encontrar paz e se reconectar com amigos que se desconectaram do ruído da Internet. Champagne é sobre privilégio branco e sobre interagir com sistemas racistas. Tem sido surreal usar nossa música para poder começar essas conversas, ou ao menos contribuir algo para o diálogo. Temos muita consciência do nosso privilégio”.

“Privilégio” é um termo que tem norteado as discussões do quinteto nessas últimas semanas, quando os protestos antirracismo voltaram a ser pauta ao redor do globo – não só no Canadá e no Brasil. “Nem sabemos se nossas vozes são as que deveriam ser amplificadas neste momento”, comenta Leah, que revela que tem aprendido bastante sobre seu papel enquanto artista em um momento de grande turbulência social como este:

“Muito do som que toca nas rádios de rock em Toronto é feito por uma banda de cinco homens para homens ouvirem. Eles todos se parecem, se vestem igual e pensam as mesmas coisas, então nunca são desafiados a pensar diferente. Acho que ter uma banda com dois vocalistas já nos pede outra postura. E também pelo fato de que o mundo mudou muito desde que começamos a fazer música, acho que estamos mais acostumados a pensar como utilizar nosso espaço de maneira responsável, como intervir quando é necessário. Acho que nossa visão se ampliou e enxergamos melhor agora o espectro de injustiças e os entrelaços dos sistemas opressores. Mas, no começo da banda, havia muita misoginia, e aprendemos sobre como nossa indústria é misógina, homofóbica, transfóbica e racista. São coisas que tivemos que aprender a nos levantar e ir contra, mesmo quando era uma daquelas situações em que alguém fala uma besteira e dá vontade de não gastar energia com isso. Com tempo, essa prática ficou mais comum, e a severidade dos danos que essas situações causam no mundo confere ainda mais urgência para essa postura”.

Não há como se esquecer também que Pray for It chega junto a uma pandemia global, que mudou todos os planos de turnê que a banda tinha. A solução temporária foi desenvolver um show no estilo drive-in, que Peter diz estar “muito animado” para realizar: “Estamos fazendo um show interativo, com propagandas antigas no meio das músicas. Tem câmeras por todos os lados, você tem uma noção bacana do que está acontecendo no palco. Vários dos membros da banda estudaram cinema, então estamos interessados em fazer mais do que subir em um palco em um estacionamento e tocar para os parabrisas. Queremos trazer uma experiência diferente e intimista”.

“Tem sido uma baita experiência entender como fazer esse show de maneira segura. E, depois de todos os cancelamentos de shows nesses meses, tem sido bom poder focar em um projeto”, conta ele, “tem sido um ano louco e lançar música nessa época é algo complicado. Mas nós não tivemos muita escolha, enrolamos dois anos já para lançar este disco e só queremos vê-lo no mundo (risos)”.

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