Entrevista: Castello Branco

foto de andré hawk

Sintoma é um disco que chega de fininho. Digo isso tanto pelo seu anúncio, feito poucos dias antes do lançamento (marcado para este domingo, 01º de outubro) sem alarde nem música nova, mas também porque é o tipo de obra que conquista seu espaço falando ao pé do ouvido, abraçando o ouvinte aos poucos com o preenchimento do som e revelando sua enorme beleza à medida que nos sentimos à vontade para receber mais e mais vezes seu conteúdo e sua forma.

Nele, Castello Branco assumiu as vezes de produtor e convocou Ico dos Anjos e Lôu Caldeira (que também estava em Serviço, seu disco de estreia lançado em 2013) para os cargos de co-produtores, além de gente como Mãeana e Filipe Catto nas participações. O álbum de onze faixas flui de uma só vez, com canções interligadas tanto na sequência como no universo lírico e estético em que elas estão em uma coesão bem maior do que a que vemos no anterior – e é interessante como essa questão só se é percebida após ouvir Sintoma.

Essas são algumas das questões conversadas com o músico carioca por telefone, que contou ao Música Pavê sobre algumas das decisões que envolvem a produção do álbum e o atual momento na carreira, após ter lançado em 2016 o livro Simpatia e com residência em São Paulo, um ambiente bastante diferente do monastério onde morou na infância.

Música PavêImagino que você já esteja preparado para responder esta pergunta, então vamos começar por ela: Por que o nome Sintoma?

Castello Branco: Sintoma, para mim, é um espelho. Eu faço disco que de fato tenha alguma serventia para o que eu sinto para o momento planetário. Serviço foi isso, um serviço mesmo, e Sintoma agora é um espelho.

MP: Vou interpretar então que por “espelho” você se refira ou a uma projeção do universo, da realidade que você vê, ou de como você se enxerga nela.

Castello BrancoIsso, não é um espelho meu. Eu fiz essa brincadeira de ter eu criança na capa para brincar com a questão do espelho, mas é como eu faço a reflexão do atual momento planetário.

MP: A primeira coisa que me chamou a atenção no anúncio do álbum foi ver que O Peso do Meu Coração, uma música que já conhecíamos, é a que abre o repertório. Ela está ali para fazer uma ponte entre o velho e o novo?

Castello Branco: Hmmm pode ser visto assim. Mas eu não sei se [o álbum] está soando tão novo assim, tão diferente de Serviço, porque algumas pessoas me falaram que ele ainda tem um quê de primeiro disco, como se tivesse ali a minha essência, como no Serviço. A escolha de O Peso do Meu Coração para a primeira música foi mais porque eu tive essas canções internamente por tanto tempo, e essa sempre foi pensada como a faixa de abertura, até porque ela começa com uma frequência de meditação em mi que calhou de ser a mesma da música. A história, esse “livro”, esse “espelho”, ela foi escrita a partir de O Peso do Meu Coração. Ela não está ali para ser essa mistura dos dois discos. Você fez uma boa observação, acho que funcionou assim, mas isso não foi pensado.

MP: Já que você tocou no assunto, admito que, para mim, os dois discos são bastante diferentes sim e por diversos motivos. O primeiro deles é pela impressão de Serviço ser uma coletânea de boas músicas, enquanto Sintoma se apresenta como uma obra muito mais fechada em seu conceito.

Castello Branco: Que bom, foi isso mesmo o que eu quis, que bom que você sintonizou isso. Dessa vez, como eu assumi a produção musical ao lado do Lôu [Caldeira] e do Ico [dos Anjos] – é importante citar que ele trouxe muita coisa nova para mim, tanto eletrônica quanto de ritmos do Maranhão -, eu estava mais maduro para contar a história. Eu estou encontrando meu lugar no som. Serviço parece mesmo uma mistura de várias canções com referências que eu gosto, uma bem diferente da outra, porque foi isso mesmo, foi o meu momento ali mais jovem querendo juntar muita coisa de uma vez, e agora eu pude começar a contar a história do que é o som do Castello Branco.

MP: Esse lado mais eletrônico é algo que eu considero fundamental na percepção do disco. Uma palavra que me veio à mente foi “contemporâneo”, porque até mesmo o tratamento do som, com uma horizontalidade interessante na medida que a música se propaga nos fones de ouvido, parece apontar a um diálogo mais intencional com o nosso tempo. Como você fez essas escolhas?

Castello Branco: Isso começou com a minha relação com a música eletrônica. Eu produzi algumas faixas para tentar me bancar no início da minha vinda a São Paulo, tive muita relação com muitos DJs, tanto que Sintoma – e eu ainda não falei isso em nenhum lugar – vai ter um disco de remixes lançado no início do ano, feito por vários DJs do mundo todo que eu acabei conhecendo nesse meu caminho na música eletrônica. Ela abriu em mim um terceiro olho e eu consegui identificá-la como a mãe de todos os sons. Eu cheguei a dizer em um festival onde eu toquei no fim do ano passado, e eu choquei um monte de gente, que eu disse que o DJ era o novo poeta (risos), eu não expliquei mais a fundo e a compreensão não aconteceu, mas tudo bem, eu quis chocar mesmo. O que eu quis dizer foi que a palavra é uma coisa muito arcaica, e eu tive de tentar entender porque o som, a dança e os símbolos são mais fortes do que a palavra, que se tornou tão leviana para mim. Até porque, neste momento planetário, a palavra está muito em baixa porque as pessoas estão cansadas de ouvir o que os outros falam e não verem uma mudança. Porque a palavra ficou banalizada, a gente não sabe mais onde está seu poder. Então eu fiquei muito nese vibe dos símbolos, que são muito mais poderosos. A eletrônica é a desconstrução do som, o sintetizador mexe com a síntese do som, e poesia é a síntese da palavra. É claro que nem todo DJ é poeta, mas o produtor que entra profundamente no som tem a capacidade de fazer a nova poesia, de mexer com as novas frequências sonoras. Essa minha relação me fez ver que eu precisava ter isso na minha música, que Castello Branco tem tudo a ver com isso. Eu fiquei pensando onde e como poderia usar sintetizador, por isso eu escolhi uma pessoa super sensível (Ico dos Anjos) para colaborar com isso, porque os sons precisavam ser delicados e trazer essa desconstrução. O disco tem muitas frequências que soam e reverberam, às vezes com instrumentos de meditação, às vezes com frequências que a gente destruía com um programa para ter essa característica meditativa-contemplativa.

MP: Sobre essa questão da palavra, me chamou atenção ver Filipe Catto como um dos convidados, e sabemos as qualidades de intérprete de canção que ele possui. Quando fui ouvir Nascer do Sôm, porém, me deparei com uma música sem letra. Como foi esse convite de tê-lo no disco?

Castello Branco: (risos) Ele confiou em mim porque ele gosta do meu trabalho. Eu quero que todo disco tenha uma faixa dessas e uma pessoa interpretando uma melodia que me veio da maneira que ela sentir que tem que ser interpretada, e a voz que vai fazer isso sendo uma que eu identifique como da minha geração, ou do meu tempo. No primeiro, foi Alice Caymmi, no segundo, Filipe Catto e no terceiro vai ser outra. E isso, sim, por sentir que a palavra já não é mais tão importante.

MP: Ainda assim, o disco tem bastante letra, e foi interessante notar, novamente em comparação a Serviço, que seu estilo de escrever começa a ficar mais evidente, algo mais carinhoso com diminutivos e uma oralidade bastante cotidiana – coisas que eu não teria identificado com apenas um álbum.

Castello BrancoEu ouvi essa semana do Cícero, que está indo pro quarto disco, que o primeiro é aquela coisa mais sua com você mesmo se descobrindo, enquanto o segundo é um lance de você já conhecer o seu som e experimentar com ele, e o terceiro é uma mistura dos dois, porque aí você de fato consolida o que é o seu som.

MP: E como você explica o seu som hoje?

Castello Branco: Ufolclore. O Lôu deu essa tag de presente a mim e a Mãeana, e eu entendi que é a mistura das minhas referências brasileiras com as minhas cósmicas, “ufo”. Essas coisas de “não tem mais esse trem de homem”, o ser para mim sempre foi muito andrógino, onde eu cresci era androginia pura, para mim são assuntos velhos, mas agora eu sinto que preciso dizer porque está chegando o momento de falar sobre isso. Talvez se eu falasse dessas coisas em Serviço seria meio bizarro, agora eu entendo que está todo mundo puxando essa energia. Não só eu, até porque, para as pessoas que não me conhecem pessoalmente, eu sou só um homem, sei lá, hétero, ou bi, ou gay, tanto faz, mas um homem com barba, branco, enfim. A galera não sabe onde eu fui criado, qual a minha experiência de vida e tudo, então seria muito estranho eu ter falado essas coisas antes.

MP: Imagino que isso tenha a ver com os processos que você passou nesses quatro anos, percebendo a sua voz. Como você lida com a perspectiva da sua relevância para o seu público hoje?

Castello Branco: Eu não me dou conta de algumas coisas. Não sei se porque cresci no interior, no mato, e sou mais jeca do que menino da cidade, ou porque eu sou mais desligado mesmo, mas talvez eu ainda não tenha chegado ao ponto que eu quero, então eu ignoro onde eu tô para almejar o que eu quero… Eu não sei de fato de onde vem isso, mas eu não tenho tanta noção ainda dessa voz, de onde está o meu lugar. Eu sinto que Sintoma vem para dar início a tudo isso, porque é um disco que tem um discurso muito mais claro que o Serviço. Ele também traz vários assuntos, mas tudo sob uma mesma energia, o que faz com que as coisas fiquem muito mais fortes, na minha opinião. Então, eu acho que vou começar a entender tudo agora. Tanto que o Lôu fala para mim: “Castello, você agora precisa ser mais firme do que humilde, buscar onde está a sua autoridade sobre o que você pensa e sente de verdade, e não ter medo ou falsa modéstia. Você precisa ser o líder do jogo que você ensina”, eu achei tão bonito (risos).

MP: Pensando também nesse intervalo entre os dois álbuns, nós sabemos que Serviço é uma obra que muita gente tem com muito carinho. Você precisou, na hora de planejar Sintoma, lidar com a expectativa do público?

Castello Branco: (pausa) Não. (risos) Sabe por que? Porque eu estava confiante que o que as pessoas gostam no Serviço é extremamente o que eu sou. Eu sei que isso pode soar com uma certa pretensão, mas posso te dizer de cabeça limpa, porque eu sei exatamente quando estou sendo pretensioso, que não é pretensão. É uma certeza, uma paz, de saber que o primeiro disco foi produzido por quatro pessoas, por isso ele é musicalmente muito vasto. Tem coisas musicais nele que eu não faria, tanto que não fiz de novo, porém identifico que o que as pessoas mais gostavam de verdade, no âmago delas, veio de mim. Essa confiança me fez ir pro Sintoma sem a menor preocupação. É claro que vai ter quem vai dizer que gosta mais do primeiro, mas quando a coisa é feita com tanta paixão, tanto entendimento e tanta profundidade, se você consegue passar isso, não existe gosto. Você vai recorrer ao Serviço em alguns momentos e ao Sintoma em outros, vai depender do seu momento.

MP: Nós conversamos sobre o esvaziamento de significado da palavra, mas, nesse meio tempo, você lançou um livro que traz justamente versos sem música. Como foi trabalhar nesse formato?

Castello Branco: (risos) Como eu te falei, Serviço é um serviço, Sintoma é um espelho e Simpatia é uma ironia, porque o simpático é meio irônico, ao mesmo tempo que é uma patia do sim, uma doença pelo sim, pela permissão. O livro tem várias piras dessa, tem coisas muito pequenas com poucas palavras, mas, ainda assim, me soa uma ironia, porque é exatamente como você falou: São palavras e todo mundo já usou elas de todas as formas e está em um lugar de credibilidade muito difícil. Mas eu decidi fazer, porque eu estava com muitas sínteses que eu decidi expôr ao mundo. Eu estava em um momento de tocar só voz e violão, fiquei três anos tocando assim para entender e compartilhar de uma forma mais “eu e eles” com o público, aí resolvi lançar o livro para também estar produzindo alguma coisa, que é algo que eu preciso estar sempre fazendo.

MP: Você comentou do contato que teve com a música eletrônica ao se mudar para São Paulo. Você percebe outras formas que esse novo cenário influenciou o disco?

Castello Branco: A compreensão do cinza. Tanto que a capa do disco é cinza, não é branco nem preto. A compreensão da cidade nas coisas, como que ela funciona se propondo a ser uma cidade. As pessoas me perguntam o que eu estou fazendo em São Paulo e eu respondo: “Estou aprendendo” (risos). É uma das maiores cidades do mundo, ela é muito forte nas coisas que ela passa, a gente aprende muito.

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