Katia B Quis “Ser Desafiada” em Seu Novo Disco

foto por branca bronstein

Alguns trabalhos são resultados de toda uma carreira já vivida. Outros, uma menor parte, vêm quase como uma resposta àquilo já feito no passado. O mais recente lançamento de Katia B, o EP Canções de Outro Mundo, se possível apenas pela vasta experiência da artista, pertence a essa minoria enquanto, digamos, atitude. Isso porque ao invés de somar os elementos que compõem sua arte e seu repertório, a obra nasceu de um, ou de alguns, desafios criativos seus e de seu parceiro Antonio Saraiva.

Katia começou sua múltipla carreira – ela é cantora, atriz e dançarina, para citar algumas de suas funções – há quatro décadas, com o lendário Circo Voador do Arpoador, que marcou toda uma geração (e seus herdeiros) no Rio de Janeiro – ele surgiu a partir de um curso da trupe Asdrúbal Trouxe o Trombone no Parque Lage, no verão de 1981, onde estavam também Cazuza, Bebel Gilberto, Fausto Fawcett e Saraiva. “Nos reencontramos quando fiz meu quarto disco, Pra Mim Você É Lindo, e, desde então, vimos em um diálogo artístico tocando juntos e fazendo shows, até a hora que decidimos fazer um trabalho novo” contou ela ao Música Pavê.

“Queria ser desafiada, queria sair da minha zona de conforto”, explica a artista, “meus andamentos sempre são mais lentos, mais down beat, um eletrônico mais pela maneira como é construído, não pela batida. Eu queria ser desafiada nas subdivisões rítmicas, porque eu tenho uma tendência a fazer notas muito longas, que tem a ver comigo e com o meu [trabalho com o] corpo. Ele tem um trabalho muito rico que bebe na polirritmia, então pedi canções com subdivisões mais presentes”.

Em contrapartida, Saraiva também recebeu um desafio: O de escrever as faixas de Canções de Outro Mundo a partir de títulos propostos por Katia. “Foi um jogo, Antonio é um artista muito potente, com muitas ferramentas para sua expressão”, conta ela, “música, para ele, não é problema. Fui dando títulos e ele vinha em seguida com letras, depois com música e uma ideia de arranjo. Isso foi muito engraçado, porque eu ouvia a composição e achava estranha e que não conseguiria cantar. Aí, eu tentava gravar, insistia e, quando via, estava apaixonada pela música (risos). Eu ficava muito desesperada achando muito difícil de cantar, e depois aquela virava a minha favorita”.

Katia e Saraiva trabalharam suas músicas ao lado do produtor David Brinkworth, em um processo que ela descreve como “muito minucioso” – “gastamos muito tempo em cada som de cada faixa”. A estética proposta na obra dá continuidade às buscas e investigações que a artista percebe ecoar ao longo de sua carreira. “Âmbar, essa música que abre o EP, parece o lado-B de uma música do Vitor Ramil, Que Horas Não São, que está no meu primeiro disco, de 1999″, explica ela, “todo esse universo modal, com escalas mais orientais, um tipo de música que traz uma ideia de circularidade, uma ideia mântrica, e onde eu sempre estou buscando criar um impressionismos através de texturas, no diálogo do acústico com o eletrônico… isso acontece desde o meu primeiro disco”.

“Todos os meus trabalhos têm essa busca de revelações através de impressões, de camadas que, cada vez que você escuta, ouve mais coisas, porque têm muitos detalhes, muitas perspectivas no som – ele não se revela tão facilmente”, comenta Katia, “curto essa ideia de pegar um instrumento como o berimbau, que é da capoeira, e colocar em uma música modal, oriental e mântrica. Você escuta que é um berimbau, mas em um novo contexto”.

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