Um Semestre em Uma Tarde com Thiago Pethit

No meio de dezembro, me sentei para um café com Thiago Pethit durante uma tarde chuvosa de verão em São Paulo para uma entrevista para o Monkeybuzz. Conversar com o músico por horas (e, depois, redigir e editar o resultado disso) foi o encerramento de um ciclo que começou alguns meses antes, logo quando saiu a notícia em julho que ele estaria prestes a lançar seu segundo álbum. A partir daí, seu nome foi um dos mais presentes no meu trabalho ao longo dos últimos meses, culminando naquela tarde. Se algum tempo antes eu diria que apenas sabia por cima quem é Thiago Pethit, minha impressão é que passamos todo o semestre juntos e agora o conheço muito bem.

É claro que eu tinha ouvido Berlim, Texas logo que saiu, em 2010, e acompanhei uma ou outra novidade nesse meio-tempo. Lembro de ter comentado quando saiu o clipe de Não Se Vá que aquela música me lembrava Perfume Genius e que eu queria que seu disco fosse mais assim, triste. Mal sabia eu seu próximo lançamento viria com uma atmosfera não melancólica, mas dramática.

Estrela Decadente é teatral do início ao fim, trabalhando diversas sonoridades contemporâneas sempre com uma forte presença da guitarra e letras um tanto divertidas, às vezes até sacanas e com um quê sim melancólico. Mas a descrição que mais gosto de dar ao álbum é a de “muito bom” mesmo.

Não tem como estimar a quantidade de vezes que ouvi o disco, freneticamente anotando todo e qualquer detalhe a seu respeito que notasse, fruto de uma grande curiosidade investigativa fantasiada de perfeccionismo. “Isso foi o que eu mais gostei no seu texto. Eu nunca tinha pensado assim”, disse ele sobre minha observação sobre a quantidade de vezes que “eu” aparece no início das músicas, e eu tive que maneirar no sorriso de “missão cumprida” ao saber que, nossa, descobri algo sobre o álbum que nem Thiago sabia. Uma daquelas sensações que faz qualquer crítico se sentir mais próximo de algum tipo de realização.

E aquele café só aconteceu porque ele disse ter gostado da resenha – e nem foi pra mim que falou. Foi para o Galassi, também do Monkeybuzz e devidamente identificado por Pethit em um show. Ele nos colocou em contato e foi a minha vez de ir ver Estrela Decadente ao vivo. Quando o músico disse “Eu sou a Estrela Decadente” no palco, a minha sensação era a de que, naquela altura da história, eu já tinha certeza disso.

Entre os goles de café, Thiago reclamava das pessoas que o criticavam sem conhecer seu trabalho, contava como era ser um artista independente no Brasil e falava de divas do passado e do presente enquanto acendia cigarros. Tudo isso me ajudou a entender melhor o que ele me explicou sobre a tal Estrela Decadente não ser um personagem, mas um “extrato artificial” de quem ele mesmo é. A figura caricatamente sofrida do disco é um exagero das pequenas coisas que compõem a pessoa Thiago Pethit.

Pessoalmente, ele ri alto e com frequência, se preocupa em escolher as melhores palavras e gosta de fazer perguntas. Nessas horas, não consigo observar algum personagem no cara sentado à minha frente. Ainda assim, dá para deduzir de onde surgiram os fantasmas que atormentam sua tragédia pessoal que viraram disco. Thiago me contou, no meio da conversa, da depressão e do estresse sem que sua expressão mudasse muito. O assunto não era uma cena a mais a ser interpretada, mas um relato humano de experiências próprias.

E é isso o que má a sensação de hoje conhecer o cantor tão bem. Se em pouco tempo sua obra se tornou tão frequente em minha vida, o privilégio de ter contato com a pessoa por trás da música dá uma dimensão muito maior à sua arte, torna todos os exageros e teatralidades do álbum mais fáceis de ler como reflexos da realidade que o músico vive por dentro e por fora. Se antes eu diria “Ouça Estrela Decadente“, hoje eu digo, com todo o significado que a frase carrega, “Ouça Thiago Pethit”.

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