Tais Alvarenga: “Muita coisa é chamada de amor e não é”

“Elas falam sobre como o amor existe nos dias de hoje de um jeito muito cruel”, comentou Tais Alvarenga por telefone ao Música Pavê ao ser perguntada sobre as músicas de Coração Só, seu primeiro álbum. “O retorno que eu recebo das faixas que eu lancei vem de pessoas que também são assim, que também amam com força, que acreditam em honestidade e que é válido esse formato de amor um pouco mais profundo”, conta ela, “hoje em dia, muita coisa é chamada de amor e não é”.

Cantora, compositora e pianista, a carioca entrou aos 18 anos para a trupe de Oswaldo Montenegro e, após a vivência como atriz, foi aos EUA estudar música na tradicional e muito respeitada Berklee, em Boston. Se esse currículo mapeia muito da qualidade que a artista apresenta em suas canções, ele não explica realmente a força motriz de suas composições, baseadas nas experiências vividas, observadas e elucidadas em sua vida pessoal.

“Acho que a Tais está exposta, as relações da Taís estão expostas”, ela explica sobre o álbum, “e é claro que o amor é um assunto universal, mas entregar a minha verdade sobre ele, o que eu vivi e o que eu passei amando intensamente, é uma forma de expandir fronteiras. Eu não estou dizendo com esse disco que ‘esse é o correto’, estou dizendo que sentir profundamente e intensamente é difícil em si, ainda mais na sociedade atual. Tem pessoas que comentam minhas músicas dizendo ‘ah, mina, vai se tratar, você tem que ser feliz’. É claro que eu quero ser feliz, mas eu não estou falando isso. Eu estou me abrindo porque eu não acho que as pessoas têm obrigação de ser feliz, não têm obrigação de nada. O amor é uma coisa que demora para sair do peito. Isso é o que eu sinto”.

Sobre a escolha do repertório de Coração Só, Tais explica que ela foi feita “em cima do que eu sinto, da minha intensidade enquanto cantora, e são músicas compostas em tempos diferentes, mas todas elas entravam nesse mesmo local de ‘montanha russa’, de intensidade”. Para dar conta de concretizar suas ideias, ela contou com Pupillo (Nação Zumbi), que assina a produção ao seu lado, e do também renomado Carlos Trilha. Como ela conta, “esse disco tem a minha verdade de uma forma bonita, porque o Pupillo respeitou muito isso. Apesar dele ser um monstro da música com uma grande experiência, o Trilha também, ambos me respeitaram muito como artista mais nova, coisa que não é comum para mim”.

“Quando voltei ao Brasil, passei muito perrengue por ser mulher”, comenta Tais, “é um disco forte por isso. Eu não quero fazer nada mais nessa fase da minha vida para o mercado que não seja a minha verdade, e acho que as mulheres serão livres quando elas tiverem força para ser o que elas são. E eu sei que posso ser julgada por isso que estou lançando, e é isso que eu quero mesmo. Oswaldo Montenegro uma vez falou pra mim: ‘você vai se encontrar quando fizer algo que nem todos gostem e você seja criticada’. Ele é ‘ame ou odeie’ porque ele é um extremo, ele é uma força. E eu, como mulher e como cantora, não quero agradar as pessoas, quero dar o que eu tenho como artista e só”.

Daí também a escolha do dia 9 de março, na semana em que se observa o Dia Internacional das Mulheres, para o lançamento de Coração Só. “Acho que as mulheres estão em um momento de ainda se autoafirmar e a gente vai ser forte quando a gente não precisar mais dessa autoafirmação, quando a gente só for o que a gente é e for respeitada por isso”, conta ela, “as pessoas hoje em dia estão com muito medo de ser o que elas são, as mulheres estão buscando poder às vezes em não ser o que elas são. A verdade na nossa sociedade é só um lapso, a gente está construindo espetáculos e a gente passeia por eles de um jeito ilusório. E esse disco foi feito para que haja uma exposição, foi feito para pessoas que têm coragem, que têm honestidade”. “É um trabalho na contramão mesmo”, conclui.

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