¡Que Guapo! Bate-Papo com Manel

Pela primeira vez em quinze anos, um disco cantado em catalão foi o mais vendido na Espanha em sua primeira semana, e o fato de um grupo catalão conquistar essa posição é inédito – apenas “cantautores” o haviam conseguido. Arnau Vallvé, Guillem Gisbert, Martí Maymó e Roger Padilla, os Manel, são os responsáveis por essa mudança no Top 10 do mercado de música nacional. Nos encontramos com a banda em uma manhã de abril para conversarmos sobre sua carreira – algo que o quarteto se recusa a fazer frequentemente, mas abriram uma exceção para os brasileiros.

Os quatro se conheceram no colégio, decidiram montar uma banda, ficaram em segundo lugar em um concurso de demos organizado pela principal editora de música catalã e com o prêmio gravaram seu disco de debut: Els millors professors europeus. Pouco a pouco apareceram os primeiros convites para shows, durante os ensaios o quarteto foi ganhando coesão e quando se aproximou a primavera e todos já podiam cogitar ir à praia, o hit Al mar virou hino, junto com En la que el Bernat se’t troba e Pla quinquenal (de cuja letra vem o nome do disco).

Manel e o público catalão foi algo como amor à primeira vista. “Começávamos a perceber que o número de pessoas que vinham aos shows aumentava” se lembra Gisbert, e além do público, os quatro conquistaram também a crítica: melhor disco pop-rock do ano pela Enderrock; terceiro melhor disco espanhol pela Rockdelux; sétimo melhor disco nacional pela Mondosonoro e dezenas de críticas positivas sugerindo que se iniciava uma nova fase para a música catalã.

O forte de Manel são as letras: simples, literais, mas de uma proximidade tão grande com a rotina e suas verdades escondidas que rapidamente seduzem e funcionam como uma terapia de prazer. Bateria, percussão, violão, baixo, contra-baixo, clarinete, flauta-doce, mandola, ukelele e banjo: desse conjunto nascem melodias ao estilo folk tradicional que nos transportam tanto à Roma antiga (em Roma) quanto a uma noite fria de abril na cidade (Nit freda per ser abril); elas são envoltórios delicados que ressaltam a mensagem dos pequenos contos dentro cada canção. Aos brasileiros, Manel pode lembrar Los Hermanos ou, de uma forma mais longínqua, Caetano Veloso em suas fases mais doces e clássicas.

A turnê com Els millores professors europeus terminou em meados do ano passado e já havia muita expectativa para a segunda entrega da banda. Em março lançaram 10 milles per veure uma bona armadura, abalando o Top 10 espanhol. O título alude a uma frase pronunciada por Kenneth Branagh no filme Much Ado About Nothing, adaptação da comédia homônima de Shakespeare.

Este é um disco menos espontâneo do que o anterior, as letras são mais críticas e prudentes, os arranjos mais estruturados. Porém a essência é mantida com rigor. As canções de Manel tem a habilidade de imiscuírem-se no cotidiano; não são propostas para ouvir em um só tipo de situação, mas sim para ganharem papel quase ativo na vida de quem as escuta.

A estreia do show do novo disco em Barcelona foi antológica. Além de políticos, toneladas de mídia especializada e músicos de outras bandas conhecidas, havia fãs (desde crianças de cinco anos até senhores e senhoras com mais de 70) que cantaram simplesmente todas as letras de todas as músicas e acompanhavam a banda com já tradicionais brincadeiras de palmas e vozes. Mesmo assim, eles insistem: “Nossa vida é um tédio”.

Os deixo com alguns trechos do nosso bate-papo com Manel e o videoclipe Aniversari.

Música Pavê: Vocês conhecem e ouvem algo de música brasileira?

Guillem: Conhecemos o clássico: Vinícius de Moraes, Caetano Veloso.

Roger: Metallica (risos).

MP: Vocês gostam de fazer videoclipes? Acham que eles ainda são importantes?

Guillem: No videoclipe de Aniversari, por exemplo, quisemos ser fiéis à história da letra. Não gostamos de videoclipes que apresentam algo totalmente diferente do que é a canção.

Roger: Com certeza acho que são importantes. É uma maneira de ilustrar o nosso trabalho. Talvez por causa de orçamentos restritos não se podem produzir vídeos de qualidade, mas eles continuam sendo uma forma importante de se comunicar com o público.

Arnau: Fizemos o Aniversari porque tínhamos que aproveitar o Roger (Roger tem formação audiovisual) (risos).

MP: Como vocês vêem a atual cena musical catalã?

Guillem: Não vejo essa cena catalã tão comentada na imprensa. Em Paris hoje há muitas propostas interessantes e ninguém fala da cena parisiense. Os trabalhos dos grupos (na Catalunha) são independentes. Alguns amigos músicos que estão há mais tempo no mercado comentam que o público dos shows aumentou muito, é o que sei. Vocês, nas redações, recebem os discos, vão a muitos mais shows do que nós e, por isso, podem ter uma visão mais geral e identificar essa tendência, mas nós não a percebemos.

Martí: Fazemos nossas músicas e este é o nosso foco. Defendemo-nos no show, nas apresentações ao vivo, é o nosso forte. Mas não nos sentimos inseridos em um momento especial da cena catalã.

MP:Quando vocês perceberam que estavam atingindo um sucesso inédito, questionaram quais caminhos a banda deveria seguir?

Guillem: Acho isso um clichê que não existe. As coisas foram acontecendo organicamente. Claro que se há gente interessada em ouvir nossa música e ir aos nossos shows, continuaremos trabalhando. Não há segredos. Costumam dizer que nossas entrevistas são insossas, mas simplesmente dizemos a verdade e pode ser que isso frustre os jornalistas que imaginam uma história mais incrementada. (Guillem é formado em jornalismo).

MP: Os jornalistas e o público gostam de conhecer os criadores das músicas que os interessam, talvez por isso queiram sempre mais detalhes.

Guillem. Certamente, porém o mais importante é nossa música. Eu sou um fanático neurótico por Bob Dylan que já leu biografias detalhadas, mas antes de chegar a este ponto fui totalmente atraído pela música dele.

Leia mais sobre os novos sons que vem da Espanha na coluna ¡Que Guapo!

Shuffle

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3 Comments on “¡Que Guapo! Bate-Papo com Manel

  1. Eu considero ‘Aniversari’ uma música extremamente épica (e claro, o vídeo também); tem um lirismo muito sensível e bonito.

  2. Bonito demais! A introdução me lembra muito “All Delighted People”, do Sufjan Stevens. Gostei de conhecer mais da banda =) Sucesso e reconhecimento merecidíssimos.

  3. Pingback: 5 Discos Europeus de 2011 Que Merecem Sua Atenção : Música Pavê

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