Por um Rock menos nacional e mais brasileiro

Lembro que nos anos 80 a extinta Rede Manchete exibia um programa com as bandas de rock nacional da época, o divertido Milkshake. Apresentado por uma Angélica adolescente, a abertura e o cenário mostravam uma lanchonete americana dos anos 50, fazendo referência ao rock’n roll em sua forma mais clássica. E o programa existia porque foi naquela época que o Brasil observou a produção do gênero popularizar-se por aqui e logo ganhou o apelido – com cara de subgênero – Rock Nacional.

Mesmo com histórico de Jovem Guarda e a Tropicália, parecia a primeira vez em que público e crítica se firmavam como roqueiros, ao mesmo passo que vestiam a camisa de nacionalistas. Apoiado pelas grandes gravadoras, o Rock Nacional lotava shows, dominava as rádios e vendia o que as bandas de hoje só sonham, mas também tentava se inserir no cenário musical global como um mercado particular de produção cultural local, na necessidade que nossa cultura de terceiro-mundo tem de tentar sempre mostrar que também pode fazer o que os outros fazem bem.

Mas o quanto nacional era esse tal subgênero? Ou melhor, por que a gente caracterizaria essa produção com um novo rótulo? Só por ser cantada no nosso português? Os próprios estilos e gêneros surgidos no Brasil são mesclas e produtos de ritmos estrangeiros, sejam eles europeus ou africanos, e como os modernistas nos ensinaram, esse comportamento é natural do nosso povo.

Quando olhamos para o que chamamos de MPB, percebemos particularidades que vão além do idioma cantado, mas características justamente da colcha-de-retalhos que encontramos por aqui. E se essa é a maior definição do que é a produção cultural no país, então o Rock Nacional tinha muito pouco de “brasileiro”.

Nos anos 90, o grunge dos Estados Unidos e o britpop da Inglaterra deram um fôlego ainda maior para o rock mundial, permitindo que o gênero no Brasil resgatasse sua brasilidade, que parecia ter se diluído no passado com nomes como Raul Seixas e Novos Baianos.  Sempre que ouço Brasil, do grande poeta Cazuza, penso no contexto em que ele a escreveu – justamente o ápice da produção do Rock Nacional – e logo penso nele pedindo para a nossa música se mostrar de verdade.

Gosto de pensar também que se ele tivesse vivido esses últimos vinte anos, ele teria sorrido ao ver que seu pedido foi atendido. Diversos artistas e bandas conseguiram confundir as definições de Rock e de MPB e produzir um som naturalmente brasileiro e autenticamente roqueiro. Finalmente, podemos afirmar que não apenas fazemos rock no Brasil, mas fazemos rock brasileiro.

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2 Comments on “Por um Rock menos nacional e mais brasileiro

  1. Não tem nada que eu gostaria de ter vivido mais do que a história que se fazia na música com Cazuza vivo, rebelde e desbocado.

  2. Pingback: Rockologia: Rock Brasileiro | Música Pavê

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