Patricia Marx: “A música se comunica de maneira abstrata”

“É muito louca essa resistência, essa imagem congelada que muita gente tem de mim (risos). Eu sou um espelho para elas. O desejo que elas colocam em mim é o desejo que está nelas, não sou eu. Elas estão em suas épocas, elas têm saudades daquilo, mas eu já estou a anos luz de distância – pelo próprio sentido da vida, enfim” – é inevitável citar o passado ao conversar com Patricia Marx sobre sua música. Para além de como o presente de qualquer indivíduo é consequência do ontem, ela é um caso atípico de alguém que sempre teve uma carreira, desde os oito anos de idade, daí cada lançamento surgir espontaneamente como um argumento de seu distanciamento da imagem que alguém poderia ter da artista mirim que ela foi um dia. You Showed Me How, seu novo clipe, é inevitavelmente mais uma justificativa para os olhos se concentrarem em quem ela é em 2018.

A faixa, primeiro single de seu próximo disco, foi composta pelo jamaicano Marc Mac (4Hero), seu amigo e antigo colaborador. Falando ao Música Pavê por telefone, Patricia conta que ele “não sabia que eu tinha me divorciado quando eu mandei a música para ele. Como acredito que a música se comunica de maneira abstrata, através de frequências, creio que o recado foi dado através dela – mandei a melodia sem letra e o meu amigo captou essa angústia, esse tema sobre a perda, sobre o amor, essa Fênix em que eu me vejo em todas as fases da minha vida. Faz dois anos que me separei e só agora, que estou fazendo o disco, estou conseguindo exprimir isso em forma de arte”.

Quem já passou por isso sabe que é um momento muito dolorido, e também de uma grande transformação”, explica a artista, “o vídeo é um raio-X de mim mesma em todos os âmbitos. Ele fala por si só, não tem muito o que dizer. Quem conhece minha trajetória vai entender tudo o que tem lá. Além de serem imagens que me refletem, elas refletem a letra, que também é uma história minha”. 

Com direção de Ricardo Frei, o clipe mostra Patricia com referências ao luto e à melancolia na direção de arte. Ela então tira seu véu e é vista aberta a novos sentimentos e experiências. Ao final, ela pode até se parecer com quem era no início, mas percebemos que já não é mais a mesma – uma dinâmica que se repete ao longo de toda sua carreira, para muito além de quem ela foi nos anos 1980.

Todo dia você muda de temperatura, de humor, de célula, de roupa, de lugares, tudo. A vida é esse trânsito”, ela explica, “as mudanças são implícitas, elas não fazem parte de mim ou de qualquer outra coisa. Não é ‘ah, vou mudar porque está na moda’, ‘porque é isso que vai vender’… Eu tenho essa necessidade, isso tá em mim. Mas as pessoas querem coisas mais engessadas. Já que eu comecei muito nova, elas têm essa marca afetiva minha do passado, e essa marca ainda está em mim de uma maneira mais adulta, um pouco mais amarga, mais madura”.

Em suas palavras: “Eu sou pragmática na hora de executar as coisas, na hora de escolher os conceitos, na hora de direcionar os artistas que trabalham comigo – designer, fotógrafo, diretor de arte, figurinista, esses artistas. Mas eu sou um mundo muito complexo (risos), eu fico tentando exprimir isso em palavras, como hashtags. A gente hoje tem uma comunicação muito direta, muito rotulada e muito rápida, né? É complicado colocar em palavras. Então tá tudo no clipe, tá tudo na música, eu tô usando a comunicação para outros sentidos, não só para bater o olho e ler rapidamente, mas com uma profundidade um pouco maior”.

A própria intenção de dar um remix para You Showed Me How, lançado antes do vídeo da faixa original, vem de uma narrativa de transformações (um remix nada mais é do que a música metamorfoseada) – e ele também ganhará um clipe. Um olhar atento percebe que essa construção afasta seu trabalho de um mainstream do qual ela faz sim parte, ao mesmo tempo que, de certa forma, participa ali às suas margens.

Eu não acredito nessa figura ‘celebridade’, para mim é uma figura líquida, ela não dura, ela não tem profundidade”, conta Patricia, “fica aquela coisa de artista de permuta, sabe? ‘Ah, eu vim nesse restaurante tal’, ‘tô usando essa roupa tal’ (risos), fica nessa coisa rasa, eu não acho interessante. Minha vida é de gente normal, eu sou uma artista como qualquer outro trabalhador. A minha loucura tá na minha música, tá na minha imagem, tá no que eu penso sobre determinada coisa, enfim”.

Não me sinto pressionada, mas sou muito convidada a fazer coisas como reality shows, programas mais populares que não tem muito a ver com a música, ou com o álbum que tá saindo, e sim na sua vida, no seu drama, nas suas tristezas. Eu não gosto de assistir, mas as pessoas adoram, porque existe o lado do sadismo, o gozo pelo sofrimento dos outros… Eu não gosto disso, não acho saudável, é um vampirismo que nossa sociedade vive se alimentando do sofrimento dos outros. Ainda se fosse para ajudar, ter compaixão, mas não. Não tô a fim de participar disso, prefiro alimentar com esses questionamentos com assuntos que estão aí no dia a dia, os assuntos que me conectam às pessoas”.

Essa dinâmica dentro e fora do mainstream vai para além do conteúdo e é vista também na estética de suas músicas, que mistura influências do R&B dos anos 90 e seus subsequentes derivados com uma célula da música brasileira trabalhada ali no fim daquela década e início da seguinte. “A minha descoberta desse R&B da década de 90 foi quando eu ainda morava no Brasil”, explica ela, “eu já ouvia as coisas de Soul e R&B, como Motown, desde os anos 80. Aí a parte mais eletrônica veio de Erykah Badu, Maxwell. Em seguida, fui para Londres e conheci o broken beat, o nu soul, daí trouxe essa conversa toda para o Brasil, aí ninguém entendeu, ficou ali no meio do caminho, depois trouxe isso para o [disco] Trinta. Eu fiquei no meio do caminho, porque eu não era da galera do rap, nem do pop, fiquei ali como uma coisa muito nova sobrevoando para ver quando iriam entender. Aí veio o Nyack, o DJ do Emicida, que me ligou e falou ‘poxa, parabéns pelo álbum, puta som. Das cantoras, você foi a única que teve a coragem de fazer um som desses. Quem poderia ter feito não fez’”.

Esse período quando voltou de Londres ao Brasil foi marcado também por seu relacionamento com a gravadora Trama – que, por si só, impactou toda uma geração de músicos no país. Em suas palavras, “foi uma escola de liberdade total, porque eu vinha de uma década inteira sendo produzida por outras pessoas, sendo dirigida, as pessoas diziam o que eu tinha que fazer, o que eu tinha que cantar, o que eu tinha que vestir, e quando eu entrei na Trama eu já estava casada e com filho. Foi uma época em que eles me deram liberdade total pra fazer o que eu quisesse, foi quando eu comecei a compor e a dirigir meu trabalho. De fato, foi um divisor de águas pra mim e pra todo mundo, acho”.

É um pouco vasto falar da minha geração”, conta Patricia, “como eu sou uma pessoa mais reservada, mais bicho do mato, eu não sei muito do que está acontecendo no mundo. Eu sei um pouco pela gama emocional. Eu tô tentando colocar tudo isso mastigado e transformar isso em uma comunicação do meu jeito, é como se eu mastigasse isso e vomitasse de outro jeito pro mundo – de uma maneira que não ofenda, mas nem tem como, porque os assuntos são muito sensíveis e as pessoas estão mais acostumadas a dizer o que pensam do que a ouvir o que o outro pensa. E a angústia aumenta quando você não é ouvido. Eu tô tentando falar sobre isso”.

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