Onagra Claudique: Independente de Tudo

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(Curta mais da série 2014 Define no Música Pavê)

Eu não votei em Onagra Claudique pra este especial. Entenda: Cada um da equipe Música Pavê precisava votar em dez nomes que definiram 2014 e eu escolhi gente como Temples, que acabou não entrando, e outros como 5 a Seco (que eu gosto muito) e Taylor Swift (que eu nem ouço, mas entendo o valor). Eu não votei em Onagra Claudique, mas a maioria votou. E eu não poderia ter ficado mais feliz.

Veja bem, o tom em primeira pessoa deste texto não é à toa, já que falar da banda, pra mim, é algo cada vez mais pessoal. Sim, eu sou o André Felipe que tá nos agradecimentos de Lira Auriverde, já que eu arregacei as mangas e fiz o que eu pude pro disco sair. E, sim, somos amigos – Roger já veio tomar café em casa, já rachei táxi com Diego -, mas minha relação com a banda é pessoal, em primeiro lugar, por conta da música. É nela que essa história começa.

Não é a primeira vez que conto essa história: Quando A Hora e a Vez de Onagra Claudique chegou em meu email (isso em abril de 2012), eu tive que parar tudo o que eu estava fazendo pra publicar logo uma resenha (já que a Internet me mostrava que ninguém havia feito isso ainda). Em um primeiro momento, a beleza de tudo me chamou a atenção tanto quanto a qualidade. Em seguida, comecei a entrar e encontrar abrigo em um nível mais íntimo com aquelas três composições (e não queria ouvir outra coisa a não ser por dias), seja pelo sorriso certeiro ao ouvir Papo Lampinho, o aconchego de Mais Cinco Minutos ou toda a ideia de troca na relações interpessoais de Umwelt (sem dúvidas, uma das músicas mais bonitas daquele ano).

 Foi a partir daí que a gente se conheceu pessoalmente e a jornada para o primeiro álbum começou – ao menos pra mim, já que perguntava de tempos em tempos (mala pra caramba) aquele “e aí, quando sai?”. No meio tempo, Onagra Claudique lançou o “livro de letras” do EP (porque chamar de “encarte” não é fazer jus ao lançamento), rolou o primeiro show (logo no SESC Pompeia, um local bem importante pra música paulistana) e veio Arrebol, uma faixa não apenas incrível, mas que mostrava a pegada em que a dupla estava pro vindouro disco (inclusive, se afastando da ideia de “duo”). Lembro de cada uma dessas coisas não por terem sido temas de assuntos que escrevi e conversei a cada época, mas porque todas elas me empolgavam daquele jeito que só as bandas que mais gostamos conseguem fazer.

No início deste ano, começamos a agitar as coisas pro financiamento coletivo que faria o álbum acontecer – e, quando tivemos a ideia do /remix, o convite pra Onagra foi inevitável (e, não à toa, fez a versão mais comentada do disco). Posso afirmar que Lira Auriverde foi preparado com todo o cuidado e carinho possíveis, além de um certo sigilo. Eu mesmo só fui ouvir as músicas novas quando o disco saiu pros apoiadores do crowdfunding, porque ninguém podia ter contato com aquele material enquanto ele não estivesse prontinho (aliás, ninguém imagina meu rancor por isso).

E veio ele. Como naquele primeiro email recebido, parei tudo o que estava fazendo pra desembrulhar o presente e ficar naquela atitude de querer ouvir as músicas até o fim e querer pular pra próxima por curiosidade. Ouvi aquela primeira vez e “uau, gostei”. Coloquei no celular e saí pra pegar o metrô. Nessa segunda, os arrepios começaram de fato notando melhor uma beleza aqui e outra ali. Ao final do dia (é claro que não ouvi mais nada naquela quarta-feira) eu já tinha me encontrado totalmente em algumas das faixas, dei print da letra e mandei pra um amigo aqui, copiei e colei ali alguns versos em outra mensagem – “Nossa, olha isso”. Corta a cena: Semanas depois, mais de um mês, deu vontade de ouvir e coloquei ele pra tocar pela enésima vez. De repente, no meio de Urtica Ardens, surgiu o maior frio na barriga das galáxias e só conseguia pensar: “Caramba, o disco fica mesmo melhor com o tempo”.

Gosto de música como um todo, mas as que me envolvem emocionalmente costumam ser minhas favoritas, e isso é algo que Onagra Claudique faz muito bem. Um dos melhores passatempos desses últimos dois meses desde o lançamento do álbum é ver as pessoas ao meu redor também encontrando a si mesmas nos versos, interpretações e melodias da banda, um processo facilitado também pela variedade de temas e climas dentro do disco – o que dá um dinamismo interessante pra cada audição também, apesar da longa duração da obra. E esse envolvimento, creio eu, é parte da razão dos pavezeiros terem eleito a banda pro especial de fim de ano.

E definiu 2014 sim. Seja por representar todas as outras bandas que estão inseridas em um formato de produção muito contemporâneo (financiamento coletivo, download gratuito) ou pela estética naturalmente trabalhada em suas composições (um misto de tendências contemporâneas com sons espontaneamente brasileiros – sendo Clube da Esquina a referência mais direta), Onagra Claudique é um ícone da nossa época. E sou egoísta o suficiente pra escrever em primeira pessoa porque uma história dessas não marcou só meu ano, acabou entrando pra minha vida como um todo, mas tenho certeza que essas músicas teriam um enorme impacto em mim se meu envolvimento com a banda nos bastidores fosse nulo.

Independente de tudo isso, Lira Auriverde é mesmo um dos discos mais bonitos do ano. Eu não votei em Onagra Claudique, mas não foi à toa que os outros votaram. Permita-se o envolvimento também – eu recomendo (em primeira pessoa) e não estou sozinho nessa.

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