Fernanda Takai explica seu “Tom”

foto por weber pádua

Às vésperas do lançamento de seu mais novo álbum solo, O Tom da Takai, a cantora mineira Fernanda Takai falou ao Música Pavê por telefone sobre a experiência de regravar a obra de Tom Jobim, missão cumprida ao lado de duas lendas da música brasileira: Roberto Menescal e Marcos Valle, que assinam a produção musical do disco.

Com lançamento marcado para a próxima sexta-feira, 1º de junho, a obra visa homenagear os 60 anos da bossa nova ao trazer a público composições menos conhecidas do maestro, feitas no início da sua carreira. A vontade era fazer algo “diferente do Tom Jobim que já havia sido homenageado”, como ela conta, “foi uma situação natural de alguém que ouviu Tom Jobim a vida inteira com esse foco de outras duas pessoas extremamente agradáveis de se trabalhar e conviver. Eles são senhores, mas têm mais energia que eu, o espírito deles é muito jovem”.

É fácil notar, ao longo das onze faixas que compõem O Tom da Takai, um grande respeito pelo músico e por cada uma de suas composições. “Na história da música brasileira, ele conseguiu sair daquela coisa de ser um cara que saiu da escola erudita e se tornou uma pessoa extremamente popular”, explica Fernanda, “ele conseguia dialogar com o mundo inteiro através do conhecimento erudito, da linguagem universal da música, mas era também um excelente compositor que acertava o tom pop das canções. Isso se deve tanto à genialidade dele, quanto às parcerias que ele fez, com letristas e melodistas. Dá noção da generosidade que ele sempre teve em fazer música com pessoas de escolas diferentes”.

O fato dele ser maestro dava credibilidade para ele em todos os círculos, sabe? Não só o fato de ser um compositor popular, mas ele dominava toda a parte complexa também. Ele dominava os clássicos todos. Mas ele sempre quis usar a paisagem brasileira, as cores brasileiras, como um elemento muito importante na música que ele fazia”. Ela conta também que viaja sempre que está de férias, e nota que “é impressionante o quanto a bossa nova é escutada no mundo inteiro. Pode ser na Europa, Japão, Oceania, Estados Unidos… passei dez dias agora em Portugal e toca-se muita bossa nova nos lugares mais legais do país, desde o mercado até o novo hotel que estreou. E eu vejo que não ficou esse negócio que as pessoas aqui têm, de ‘música de elevador’. É uma música que traz um clima bom. Todo legal que é cool, que é gostoso, tá tocando bossa nova. Eles tocam grandes fonogramas da época misturados com aquele remix que uma banda lá do norte da Inglaterra, que pegou um sampler do Marcos Valle… ela tá misturada de todos os jeitos, mas o DNA é sempre o da Bossa Nova. A gente sofre de não olhar direito pra própria história, não entender que esse elemento cultural de música que foi exportado há 60 anos continua muito vivo e com muita qualidade. Ainda soa moderno, ou contemporâneo”.

Para quem nasceu e cresceu no Brasil, a obra do artista possui ainda outro valor, que reside em um lugar afetivo na história, no repertório e no imaginário de cada um. “Quando eu era pequena, meus pais tinham fitas cassetes de compilações de músicas dele, ou de outros intérpretes regravando a sua obra”, relembra a cantora, que ainda cita “ver clipe dele no Fantástico com a Elis quado eu era pequenininha, de falar dele em várias entrevistas com Pato Fu” como alguns dos muitos momentos em que o compositor aparece em sua memória afetiva. “Ele é uma figura muito presente na vida da gente, dos brasileiros, talvez muitos nem se deem conta de quando essa relação com o Tom começa”, comenta.

Da imersão na obra de Tom Jobim, Fernanda foi impactada de algumas maneiras. Ela conta que compreendeu melhor a influência do maestro e de seus contemporâneos em suas próprias composições: “Busco geralmente uma certa elegância, tento não usar elementos demais, não gosto de aresta, não gosto de sobra. Também não gosto de prosódia, de não encaixar direito as palavras, de ter que forçar a barra para cantar alguma coisa. Vejo que as composições dessa época se preocupavam em usar o português de uma forma bem fluida. Não precisa martelar nada, era tudo bem calculadinho, a métrica perfeita”. Da mesma forma, veio um novo respeito pelo contato com as composições em forma de partitura: “É um registro histórico direto da mão do autor, é legal você ter isso. É que nem tradução de livro. Se você puder ler o original, é sempre melhor. É bom você ter esse conhecimento que nós da escola pop muitas vezes não vamos atrás”.

foto por quinho mibach

“Quando a gente vai gravar com Pato Fu, não tem partitura”, conta, “a gente compõe, grava uma demo, cifra, aprende a tocar, ensina os outros, às vezes até ensina errado (risos) e fica assim. Quando eu fui gravar essas músicas, a gente tinha as partituras originais e os arranjos feitos em cima delas. O Menescal, que é um grande diretor de voz, falava ‘olha, você tá cantando desse jeito porque você ouve desse jeito, mas não é assim. Deixa eu tocar pra você’. Com meu ouvido pop, eu simplificava o negócio, cantava do jeito que entendi. Aí ele me mostrava, eu falava ‘nossa, é mais bonito assim’ (risos). Aí Menescal dizia: ‘agora que você sabe como é, pode cantar do seu jeito’. O que eu fiz? Propus que, quando a letra se repete, eu cantava primeiro do jeito oficial e depois do meu jeito (risos)”.

O jeito que eu uso minha voz no Pato Fu e na carreira solo é basicamente o mesmo, é um jeito econômico. Eu canto muito próximo do jeito que eu falo, de usar a mesma tonalidade de fala para o canto. Timbre é muito importante, e essa característica tem sido desmoralizada pelos reality shows de jurados de música, porque tudo o que eles fazem é destimbrar as pessoas. Você quer que as pessoas emitam muito, façam muitos malabarismos, quer que elas cantem que nem a Adele ou a Mariah Carey. Geralmente, é uma formatação para o que faz sucesso no momento. Eu tenho convicção que eu iria tomar bomba em qualquer reality de vozes por aí, eu não ia passar. Eu e outras várias cantoras que tem um jeito de cantar mais curto, sem muita coisa. E esse time de cantoras que existe no mundo, não só no Brasil, devem muito à escola da bossa nova, que depois foi multiplicada via Stan Getz, com a Astrud [Gilberto] morando nos Estados Unidos, e todo mundo percebeu que dava para cantar assim. Eu sou do time que ia perder todos os realities (risos)”.

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