Felipe De Vas: Uma Voz que Merece Ser Ouvida

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É sempre bom conversar ao vivo. Ainda mais no meio da era da tecnologia, na qual todos estão cada vez mais concentrados em suas telas, é gratificante poder sentar com um grupo de amigos e jogar conversa fora entre um gole de cerveja e outro. Quando você está cara a cara, não existe dúvida sobre os sentimento por trás de cada palavra dita e, consequentemente, acabamos nos conhecendo melhor. Por isso, a minha conversa com Felipe de Vas foi tão boa, porque tive a oportunidade de compreender um pouco melhor o artista por trás do álbum Gravidade, que me marcou de uma maneira tão positiva por ser tão sincero, mas, ao mesmo tempo, tão simples. Convidei-o para um café e, durante nossa conversa, pude perceber um artista muito ligado aos seus sentimentos e que, dentro de seu trabalho, não aceita que nada que não seja verdade seja dito. Mas, acima de tudo, conheci um cara que curti trocar uma ideia tranquilamente e que alimenta-se positivamente das suas interações com o próximo.

Quando estamos ouvindo músicas novas, é sempre bom conseguir se identificar com o que está sendo dito. A canção fica na cabeça e, muitas vezes, acaba sendo utilizada como um conforto em certas situações. Quando ouvi Gravidade pela primeira vez, logo de cara pude me relacionar com a obra. Senti um tom íntimo e pessoal, a sinceridade transbordava em cada verso e toda melodia despertava um sentimento diferente. Essa característica é bem forte durante o álbum e o músico acha isso algo extremamente bom: “Por ser um álbum tão íntimo, ele acaba sendo um desabafo”, comentou, “todo intuito de um desabafo, é ser escutado. Não só ser escutado, mas compreendido. Então, ajudar alguém num CD com esse clima talvez seja o melhor propósito. Fazer alguém se sentir abraçado”. Para ele, o bom da música é exatamente isso, ter a possibilidade de criar algo em que outros possam se ver no seu lugar. Mesmo assim, durante a composição, Felipe não focou muito no outro e tentou não definir um certo padrão. “Quanto mais você definir, mais você perde a empatia”, explicou, “à primeira instância, pensar muito no público acaba sendo difícil. Posso acabar perdendo a minha própria poesia pensando mais neles. Mas, em segunda instância, depois de ter feito as letras e as músicas, é natural pensar se aquilo faz parte do mercado”.

Deixou claro em nossa conversa que o único verdadeiro conceito por trás do álbum era o equilíbrio. Aí é que entra a ideia de gravidade e o porquê do CD tomar este nome. Gravidade, resumidamente, é uma força natural de atração entre corpos, na qual o corpo mais denso atrai o menos denso. Segundo ele, isso também ocorre em um grau emocional, pois se vê sempre atraído pelos pensamentos mais densos. O CD reflete essa circunstância em sua vida. “É uma busca deste equilíbrio de pesos”, comentou, “entre o pensamento feliz e o pensamento triste”. Por isso, durante o álbum, podemos perceber que uma canção com letra triste tem uma melodia mais animada. “Pro público, eu espero que eles se sintam equilibrados ao escutar as músicas”, afirmou, “não somos necessariamente muito felizes ou muito tristes. A tristeza faz parte do equilíbrio, tanto quanto a felicidade”. Esse equilíbrio entre as faixas não existe somente no quesito emocional. As músicas tem uma harmonia interessante, pois, ao mesmo tempo em que trazem algo parecido, elas soam diferentes, fazendo com que o ouvinte fique curioso pelo o que está por vir. Comentei isso e ele refletiu: “Acho que são parecidas por terem os mesmos timbres, e isso dá uma certa linearidade. E o que faz com que as músicas estejam na mesma galáxia é a minha voz. Minha voz sempre se mantém, não muda. As letras são parecidas porque são sempre eu”. Mesmo assim, as canções sempre trazem uma característica única interagindo muito bem com a poesia.

Gravidade, lançado no ano passado, tem produção musical de Wado e Dinho Zampier, o que enriqueceu o produto final. Inclusive, quem trouxe esta linearidade para o álbum foi Wado, porque, se fosse por Felipe, o álbum seria samba no começo e afrobeat no final. “Foi ele quem deu esse equilíbrio até mesmo mercadológico”, afirmou. Essa parceira aconteceu graças ao pequeno ciclo de entretenimento em Maceió, o que torna o encontro de músicos muito mais fácil. Felipe sempre foi muito fã de ambos os artistas e essa junção ocorreu de uma maneira natural. Convidou Dinho para fazer parte do projeto e, felizmente, Wado estava sempre conversando com novos artistas, Felipe sendo um deles: “Ele topou de cara e já veio com várias ideias. Foi algo muito natural, as coisas acabaram se encaixando”.

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Os fãs tem a oportunidade de ver um pouco da interação entre esses músicos no mini doc chamado Apartamento 604 no YouTube. Ao todo, são doze vídeos mostrando o processo de criação de Gravidade de uma maneira simples. Felipe contou que foi um pouco difícil a família aceitar a sua decisão de largar tudo para seguir seu sonho, os vídeos tinham o propósito de mostrar a eles o processo complicado que existe por trás da produção de uma obra artística. “Pra mim, foi importante para meu laço familiar, para eles entenderem o que faço”, comenta ele, “mas, em geral, é para a aproximar. Aproximar minha família, mas também as pessoas que gostam do meu trabalho”. O doc acabou tomando mais um papel importante, pois revela o número de pessoas que existem por trás de um projeto como esse. “Com os vídeos, todo mundo vai ver como que se fez o álbum. Vão ver que eu não participo inteiramente do trabalho. Wado e Dinho pensaram na textura musical e eu mais na poesia. Isso ajuda a tirar um pouco do meu ego também. Desvincular a ideia de que o álbum é inteiramente meu”, conta.

Esse tema foi forte durante a tarde: o ego. Percebi que ele tem o objetivo, como músico, de não ser tomado por ele. O peso de levar a imagem inteira da banda em seu nome e ter pessoas sempre vindo falar com você sobre seu trabalho é grande. “Você se sente completamente nu”, contou, “muitos podem dizer que isso é bom ou ruim, mas depende como você lida com seu ego. Muitas pessoas se perdem nesse meio, e trabalhar com isso diariamente é uma das coisas mais difíceis”. Porém, Felipe tenta não focar na negatividade e tenta pensar em como pode influenciar outros positivamente: “Gosto muito da ideia de influenciar. Sempre fui o mais novo na família e nunca tive voz. Foi aí que surgiu a ideia de escrever poesia. Fiz um projeto solo porque tenho algo para falar. A música me dá uma voz”.

Outra maneira de mostrar o que se tem a dizer é criando videoclipes. Felipe de Vas já lançou três deles, sendo que Lampejo ganhou o prêmio de “Melhor Clipe Alagoano” no voto do público em um evento único do gênero audiovisual, e seu outro clipe, Sem Véu Nem Vaidade foi seu trabalho com mais alcance na Internet, com dezenas de milhares de acessos. Gravidade foi o último clipe lançado e já resenhamos ele aqui no site. O músico escolheu a faixa para produzir algo visual, porque sentiu que seria a melhor música para resumir o CD. Para ele, a frase “tive tudo, mas nada esteve em mim” o explica completamente: “É essa coisa de se apaixonar pelo ideal, algo bem bossa nova antiga. Encontrar uma pessoa idealizada e inalcançável. Acho que muitas pessoas são assim, se apaixonam por algo distante. Tudo fica mais bonito de longe. Então você acaba perdendo tanto o que está próximo, quanto o distante”.

A ideia do vídeo era transmitir esse sentimento de ter tudo, mas nada ao mesmo tempo, fazer com que as pessoas pensem sobre o presente. Explicou: “O homem tinha as duas mulheres, mas, ao mesmo tempo, elas se tinham. Ele não é o centro. A ideia não é ter o homem como alfa. As mulheres têm uma sintonia também”. No relacionamento demonstrado, todos se amam da mesma maneira e ninguém é o centro de atenção total. A música é vinculada ao cantor, pois é ele quem escreveu aquelas palavras, mas, se você observar, durante o clipe, todos lá sofrem da mesma maneira. Em todo o momento, estão vivendo aquele relacionamento, mas se encontram sozinhos de tempo em tempo. “Todo mundo está ali fazendo alguma coisa, mas não necessariamente vivendo aquilo”, conta Felipe, “muitas vezes, a gente vive coisa lindas, mas não está com a cabeça naquele lugar e aquilo até parece um sonho. Você acaba não lembrando aquela coisa maravilhosa que viveu. Só percebe que presenciou algo tão bonito quando ela acaba”.

Mesmo a música sendo algo que o ajudasse a falar o que queria, Felipe demorou para saltar de vez e começar sua carreira solo. Antes, tocava em bandas diferentes e sempre pensava na possibilidade de fazer um trabalho sozinho, mas sempre fugia destes pensamentos. “Minha família não tem nenhum músico, então ser o primeiro dentro de uma família que não sabe nada do mercado artístico dá muito medo” explica. O cantor ainda contou que foram duas circunstâncias que o fizeram dar o salto final. A primeira foi o conselho de uma amiga: “Ela me falou que eu tinha medo do fracasso”, lembra, “Que eu nunca pulo com os dois pés. Sempre pulo com um e fico analisando o terreno. Acabo não tendo a experiência de tentar algo novo, que é algo que realmente enriquece o ser humano”. Isso ficou com ele por um ano, enquanto preparava o EP, mas foi a família que o fez pular de vez. Quando estava em São Paulo para uma temporada, escreveu a canção Lampejo: “Fiz essa música me imaginando morto e pensando no que a minha família diria para mim”. Infelizmente, três meses depois, sua avó faleceu: “Ninguém da minha família me via como músico, mas essa música virou um hino. Minha família inteira lembrava da minha vó quando ela tocava. Só depois disso me viram realmente como músico. A música transforma de fato”.

Felipe de Vas já mostrou que chegou para ficar e que ainda tem muito o que dizer. Quando perguntei sobre o próximo álbum, o cantor sorriu e afirmou que iremos ouvir algo muito diferente: “Temos sempre que experimentar. Eu acho que as músicas não vão seguir a mesma linha. Acho que o próximo CD vai ser bem diferente e bem mais dançante”.

No fim da conversa, percebi que tinha conseguido entender um pouco melhor aquelas palavras que se encontram no álbum Gravidade. Pude ver que Felipe é uma pessoa que tem uma voz e que quer ser ouvido da melhor maneira possível, está usando sua música para transformar. Não vemos a hora de ouvir mais produções do músico alagoano e nos identificar ainda mais com sua voz. Mais um exemplo das riquezas que esta geração da música brasileira exibe, cabe a nós pararmos para ouvir o que ela tem a dizer.

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