Entrevista: Wado

Ivete é um nome icônico no mercado fonográfico do Brasil. Não é preciso dizer o nome completo para saber que estamos nos referindo a uma das maiores figuras da música popular brasileira. Contudo, no ano passado, outra Ivete ganhou destaque. Lançado pelo cantor e compositor Wado, o disco não é só uma homenagem à cantora baiana, mas, também uma grande ode ao axé music.

Wado decidiu partir para outra direção em um novo trabalho. Praticamente um ano depois do lançamento de 1977, seu disco roqueiro, o artista voltou suas raízes para a música brasileira. O axé feito em Ivete nos remete à sonoridade que o gênero tinha nos meados dos anos 1980, quando estava nascendo.

O cantor está em São Paulo para uma mini turnê por cidades paulistas, incluindo um na capital, na próxima sexta-feira (27), no Sesc Belenzinho. Nessa entrevista, que sai na estreia do clipe Sexo, falamos do processo de composição do álbum, sua memória afetiva com o axé, entre outras coisas.

Música Pavê: De onde veio a ideia de produzir Ivete?
Wado: Eu componho bastante no violão de nylon e, por causa da minha mão direita, tenho mais facilidade para compor o ijexá e o axé do que o samba, por exemplo. O desenho do samba exige que você faça o surdo, é uma técnica maior. Quando estava com uns quatro ou cinco axés feitos, percebi que essa poderia ser minha próxima onda. Sabia que, se continuasse nesse caminho, poderia fazer um disco em homenagem ao gênero. E era uma época em que o axé estava super em baixa, mas, ao mesmo tempo, estava completando 30 anos de história. Então achei que seria massa, até porque ninguém estava dando muito valor para isso. Inclusive, tinha gente do axé que estava partindo para coisas mais pop, como a Daniela Mercury, por exemplo, ou a própria Ivete que estava fazendo menos coisas axé e mais pop. Eu quis fazer um disco bem axé, mas aquele axé inicial de 1984.

MP: Quando o disco começou a ser formulado?
Wado: Ivete saiu mais ou menos com um ano depois de que 1977 (2015) estava na rua. Então, a percepção de que estava compondo um disco foi meio que seis meses após o lançamento de 77. Foi aí que comecei a ter consciência de que era um disco de axé, que eu ia peitar isso. E, na verdade, depois do disco pronto, meu lamento é só que as duas últimas músicas do disco, que acho muito bonitas, não são axés. Se tivesse feito o disco completamente de axé, ia ser mais massa ainda. Mas, ao mesmo tempo, teve gente que escolheu a canção Amanheceu como uma das mais bonitas, e ela não é axé. Então é válido também para respirar um pouco.

MP: Qual é a sua relação com o axé?
Wado: Eu gosto muito de ouvir. Como eu moro em Maceió (AL) – e estou a oito horas de carro de Salvador (BA) –, a gente tem o hábito de fazer bastante viagem para lá. Mas, é engraçado que, do Ivete para cá, ainda não toquei na cidade. E o disco é como uma declaração de amor à Salvador. Costumava tocar lá de três em três meses. Nós pegávamos aquelas coletâneas de mp3 com clássicos do axé e ficava ouvindo por oito horas de estrada para entrar no hype da Bahia. E, além do que a gente já conhecia muito, aprofundamos mesmo no gênero. Estávamos muito com o dever de casa feito, conhecíamos o gênero a fundo, escutávamos Acordes Verdes, por exemplo, que é uma banda pré-axé, em que o Carlinhos Brown tocava com o Luiz Caldas. Uma banda incrível! Inclusive, a produtora do Luiz Caldas ainda chama Acordes Verdes. Nós fomos descobrindo essas coisas pré-axé e aí rolou de fazer o disco e achei que foi bem sincero, gosto muito. E a opção de ter feito ele sequinho, não é aquele disco cheio de percussão, o axé está no DNA da canção mesmo. Não precisou encher de percussão para falar que é axé.

MP: Em Ivete, você atua como produtor, compositor, cantor (obviamente) e também participa da mixagem e masterização. Como é estar envolvido em todo o processo de produção do disco?
Wado: Falta de grana! (risos) Na verdade, assim, vinha em uma balada que juntou duas coisas: teve a crise brasileira e mundial que bateu no ano passado e a primeira carne é a da cultura. E o 77 eu tive um lance com a Deck, nós não conseguimos lançar o disco direito, nem eles nem eu. E acho que ele acabou sendo um fracasso, mas um fracasso lindo, que é um dos meus discos mais bonitos. Pena que não pegou bem. Então tive que sair correndo para fazer outro, já que o 77 não estava vendendo shows. Com essa situação de não estar fazendo show, estava com pouco dinheiro, então acabei puxando as tarefas todas pra mim. Mas acabei achando um engenheiro de som que chama Luiz Donato e nós conseguimos chegar em uma equação. Então o disco ficou muito quentinho, saboroso, sem precisar exagerar na mixagem. Meus discos são muito de assinatura de exagerar em um reverb, no som ambiente da sala etc., e esse disco é algo mais tradicional, sem exageros na mixagem, justamente porque nós estávamos passando nessas máquinas e elas deixavam o som meio grudado um no outro. Então quis fazer um disco com uma timbragem com padrão anos 1970, sem muita mão pesada na mixagem.

MP: E como é para você isso de atuar como produtor do próprio disco?
Wado: É legal quando você tem um produtor junto, gosto das duas coisas. Por exemplo, tive uma experiência com o Vazio Tropical (2013), que é um dos discos mais bonitos e um dos que as pessoas mais gostam, que foi produzido pelo Marcelo Camelo. Tem também um cara da minha banda que é o Pedro Ivo Eusébio, que produziu o Samba 808 (2011), enfim, é bom quando você delega essa função. Mas é bom também quando você acha que está no caminho certo e quer puxar para si mesmo. Às vezes, você peca com a proximidade que tem com aquilo, mas acho que é um preço pequeno para um disco que fica tão íntimo, tão seu. O 77, que produzi também, não foi comercialmente bem sucedido, mas escuto ele e tenho tanto orgulho quanto o Ivete. É massa você ter fracassos que são lindos também! Acho um discaço!

MP: Partindo mais para o lado lírico de Ivete, quais assuntos você quis trazer à tona?
Wado: Como a gente estava consumindo esse axé mais dos anos 80 e comecinho dos anos 90, a temática nessa época incluía, além de canção de amor – que é algo universal –, essa coisa da negritude, da afirmação, do Pelourinho, da denúncia social e até aquelas músicas históricas malucas, do norte da África e do Egito. Acho que, a cena alternativa deve olhar para esses gêneros que são considerados subgêneros – como o funk carioca e o axé – e mostrar que nunca foi um subgênero, mas um gênero recente. Porque canção linda você vai encontrar no funk e no axé, assim como no samba, no choro… e são músicas brasileiras. Acho legal quando posso dar uma mínima contribuição para isso. E Ivete é muito brasileiro; o 77 é meu ponto fora da curva, é meu único disco de rock. Minha obra é muito diversa, mas sempre foi toda brasileira. Ivete é minha retomada para a música brasileira.

MP: O que faz você passear tanto pela música brasileira?
Wado: Tem um filme do Lars von Trier, que chama Cinco Obstruções, que é lindo. É o meu favorito dele. A história é a seguinte: o Lars von Trier analisa o documentário de 12 minutos de um outro diretor. E ele propõe a esse diretor que ele refaça o mesmo filme cinco vezes, colocando obstruções do tipo “agora você vai ter que filmar em uma rua podre da Índia, agora você vai pra Cuba e não pode usar tal coisa” etc. Hoje enxergo um pouco assim, gosto de me colocar obstruções. Como sou um artista alternativo e sempre entro no pacote dos novos – mas já estou grisalho! –, fico colocando obstruções para me divertir. É um desafio fazer um disco de axé. E, agora, estou começando a pensar em um disco extremamente de samba e para mim isso é sério. Eu me proponho roupinhas para cada disco.

MP: Ivete ganhou muitos elogios da crítica. Esperava pela recepção que ele teve?
Wado: Pelo contrário, estava morrendo de medo. Como o 77 deu errado, na minha cabeça tinha a dúvida se virei um artista local e perdi público a nível nacional. Será que eu perdi a mão? Pra mim foi uma benção o disco ser tão elogiado! Entrar na lista da APCA em 2016 foi um prêmio, nunca tinha entrado antes com um disco solo meu.

MP: Não só a música do Nordeste, mas muitos artistas da região estão ganhando cada vez mais espaços. Ao que você atribui isso? Você consegue ver um movimento de lá ganhando mais espaço a nível nacional?
Wado: Acho que Ivete jogou e deu um outro olhar e respiro ao axé. E como não sou baiano, não me atrevi a mexer tanto no gênero quanto um baiano de fato. Respeitei mais. Já eles são o axé de 2017, enquanto fui beber na fonte do axé dos meados dos anos 80, da minha memória afetiva. Soube, mas não sei se está confirmado mesmo, que a Alice Caymmi está fazendo um disco de axé. Imagina se a gente fecha uma cena de axé para o Brasil, de uma leitura alternativa do gênero? Seria ótimo, respira todo mundo. E tem o disco do Saulo, o Baiuno (2015), é meio fora da curva também no mercado de axé. Baiuno é disco muito mais arriscado que o meu, é de uma riqueza instrumental enorme. O disco é mais África do que Bahia. E foi um disco que não vendeu muito, mas que colocou o Saulo em uma grande moral no Nordeste, todo mundo quer ir ver o show dele. É legal ver um cara que é do mainstream, que era da Banda Eva, e ainda tem tesão de fazer as coisas.

MP: Como estão sendo os shows da turnê Ivete?
Wado: Estão muito bons! Como te falei, estava com medo de ter perdido este espaço de Brasil, mas a agenda está muito boa. Nunca tive um janeiro tão bom quanto o que estou tendo agora. O show do disco está mais felizão, nós fazemos todas as sete músicas que são axé e samba de Ivete, fazemos um bloco onde tocamos Moraes Moreira, Carlinhos Brown, Timbalada e A Cor do Som. Depois vamos pro samba, das músicas do 808. Então o show está bem dividido, umas dez músicas de axé mais umas sete de samba, mais os hits que a galera quer ouvir. E se a pessoa pede uma música, nós tocamos também!

MP: O que podemos esperar no decorrer dos próximos meses?
Wado: Vem um DVD, de um projeto que foi aprovado ano passado, mas atrasou e sai nesse ano. Não sabemos se é um DVD focado em Ivete ou um de carreira, ainda vamos decidir.

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