Entrevista: Tagua Tagua

foto por rafael rocha

“Tua dor é uma dádiva” – com uma melancolia afinada em uma sonora Indie mais pra cima, dessas de festas ao ar livre no fim de tarde, Felipe Puperi chega à marca de dois EPs em menos de dois anos sob o nome Tagua Tagua. Lançado hoje, 19 de outubro, Pedaço Vivo traz mais três faixas de uma sonoridade que entendemos agora, a cada timbre refinado, a cada quebra na estrutura antes de um refrão mais cheio e a cada verso sensível, como a base de sua identidade.

Após conquistar prêmios ao redor do mundo com o (maravilhoso) clipe de Rastro de Pó, no meio de uma agenda cheia de shows para este fim de ano (o que é incomum entre outubro com eleições e um dezembro quando nada costuma acontecer), em diversos estados, o produtor, cantor e compositor sentou com o Música Pavê para comentar algumas entrelinhas de seu processo criativo neste novo trabalho e no projeto como um todo.

Música Pavê: Antes de falar de EP novo, não tem como não trazer o assunto de Rastro de Pó. Como foi produzir esse vídeo?

Felipe Puperi, Tagua Tagua: Aquilo ali foi uma viagem maluca, o diretor (Douglas Bernardt) foi quem trouxe a ideia de gravar com a Guerra de Espadas na Bahia. Primeiro, fomos só nós dois e saímos por três dias registrando as imagens para termos ideias, uma imersão muito louca de entrar nos casebres e ver como os caras fazem aquelas espadas. A gente descobriu a história de um espadeiro que morreu, era o maior lá da cidade, o casebre onde ele estava explodiu, e o clipe virou meio que sobre isso. Tem uma cena dos caras carregando o caixão, e as filhas do espadeiro estão na cena. Elas ficaram muito emocionadas, porque estávamos reproduzindo o que foi o enterro do pai – uma viagem, uma grande viagem.

MP: Há algo muito especial em você trazer à luz um folclore do interior do Brasil que o brasileiro não conhece, justo em uma época em que o país está tão fragmentado, mostrar o que é invisível.

Tagua Tagua: Invisível e marginalizado. E o que eu acho mais legal é que quase todo mundo do elenco é de lá, só a atriz (Loo Nascimento) que veio de Salvador. Foi uma experiência de vida maluca, todo mundo voltou com a cabeça assim… porque você convive com as pessoas, você vai ali ao boteco do Seu Joaquim, alguém pega o violão e começa a tocar, você vive aquilo com muita intensidade. Na hora de ir embora, ficou um pedaço de ti ali.

MP: Pensando também nesse tempo tão delicado que vivemos, penso que sua música serve também como um refúgio para dias tão sombrios. Você também acha?

Tagua Tagua: Eu acho que sim. Estava conversando hoje sobre a letra de Dádiva, acho que ela está fazendo bastante sentido – sobre se deixar ser abatido por alguma coisa para se transformar em outra. A música fala da dor como um movimento de transformação. A gente é “pedaço vivo”, tem que permitir o se transformar, permitir sair da zona de conforto e viver essas coisas.

MP: Acho interessante como suas músicas são sempre melancólicas, mas elas não te puxam pra baixo, há sempre um movimento para frente. Você tem essa intenção ou é o tipo de coisa que só repara que é assim depois que fez?

Tagua Tagua: Acho que é um misto dos dois. Eu tenho a tendência de fazer as coisas mais melancólicas naturalmente, porque é o que clica pra mim. E eu tento jogar isso pra cima positivamente para fazer um contraponto com essa melancolia. É até um desejo mais para frente, talvez em um álbum, de me permitir me afundar nessa melancolia, não tentar contrapor isso. Tipo “ok, essa música vai ser um buraco” (risos), ela não vai ter ali um momento em que ela vira esperança, sabe? Quando eu estava escrevendo Dádiva, estava lendo umas entrevistas  com especialistas sobre como as pessoas não conseguem lidar com a dor e precisam mascarar isso, mas isso faz parte do pacote da vida. Você é uma pessoa, faz parte. Vai doer? Vai, mas vive agora. Tu é “um pedaço vivo de ilusão”, você tá rindo aqui e pode receber um telefonema dizendo que alguém próximo faleceu. Faz parte, tem que viver isso, e logo acaba.

MP: Como tem sido essa resposta sentimental à sua música? 

Tagua Tagua: Ah, pra mim é o mais satisfatório, as pessoas dizem que as músicas fazem muito sentido pra elas. O que mais me deixa feliz é ver que aquilo clicou da mesma ideia que aquela ideia bateu pra mim, que uma pessoa conseguiu ter essa conexão. É um movimento que pra mim também é novo, porque Wannabe Jalva foi uma banda que tocou em inglês a vida toda, então essa conexão não existia com um discurso. Acho que o país, com tudo isso, também está trazendo para essa conexão maior. A letra tem tudo a ver com isso, mesmo que nesse refúgio que tu mesmo citou, do cara estar irritado com esse horror todo e querer uma coisa mais poética, um pensamento bonito que conforte.

MP: Você faz primeiro a letra e depois a melodia, vice-versa ou cada caso é um caso?

Tagua Tagua: Cada caso é um caso. Em Dádiva, veio tudo junto e bem rápido. Preso no Amanhã também, eu vomitei a letra, sabe? Veio a melodia, peguei um papel e escrevi ouvindo a base. Às vezes componho no violão, mas daí vem sempre algo bem melancólico. Quando eu componho já tentando fazer beats, eu levo a música para lugares onde eu não caio nisso, e aí a construção é diferente. Mas eu tenho tentado fazer mais no violão, tentado respeitar mais isso. Desatravessa, a última do EP, eu fiz toda no violão, uma canção mesmo, depois fui pensar como produzir, como deixar com uma dinâmica legal.

MP: Você consegue imaginar como Tagua Tagua seria se você não produzisse também?

Tagua Tagua: Ah, não sei, acho que seria bem diferente, porque a natureza das coisas está muito colada, sabe? E o jeito que soa tudo seria menos próprio – o que poderia ser positivo também em alguns aspectos, poderia trazer um novo parâmetro. Acho que o legal do Tagua Tagua foi eu poder criar essa liberdade dentro de mim mesmo para criar. Eu era mais travado, era mais difícil. No primeiro EP mesmo, eu pensava que tinha criado caminhos para as músicas que agora eu teria que seguir, e isso foi se perdendo. Por isso foi importante eu ter lançado singles, porque foram momentos de experimentar. E eu quero cada vez pirar mais, fazer o que eu nunca fiz.

MP: Sendo um projeto solo, Tagua Tagua é um espaço seu para fazer justamente isso.

Tagua Tagua: Pois é. Eu sempre quis ter uma música com um monte de metais fazendo as frases – tá lá, Rastro de Pó é isso. Do Sufoco também, que é um pouco mais acid, que eu já queria ter feito antes. Preso no Amanhã tem um arranjo de cordas, que eu também sempre quis fazer. É esse passeio que a gente vai fazendo, e chegou agora nesse EP que quer mesclar ainda mais o eletrônico sem muito receio.

MP: Como foi a experiência de “dar a cara à tapa” e protagonizar o clipe de Preso no Amanhã?

Tagua Tagua: Foi diferente, algo que eu nunca fiz. Eu achei que era um momento importante, as pessoas precisavam dessa associação de ver a pessoa que estava cantando, sabe? Foi uma forma de criar um vínculo, do cara chegar no show e falar “ah sim, eu conheço esse cara”.

MP: Ajuda também a passar mais essa ideia de pessoalidade com que as pessoas vão se identificar, né?

Tagua Tagua: Isso, tem toda uma vulnerabilidade de se expor. E é legal, porque você vê que isso só cria mais conexão, mais troca. Não é ruim expor sua vulnerabilidade, sabe?

MP: Tem a ver com aquilo que comentamos, de você se permitir ser uma pessoa.

Tagua Tagua: Pois é… Pedaço Vivo (risos).

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