Entrevista: Paulo Miklos

É estranho falar com Paulo Miklos e só parabenizá-lo pelo disco recente ou pelo show, visto que, em mais de três décadas, ele incorporou ao repertório popular brasileiro um olhar tão sensível quanto crítico através de suas músicas – sejam elas assinada solo ou com Titãs -, a ponto de influenciar diretamente algumas gerações, de artistas e de cidadãos.

Por telefone, digo isso a ele, que recebe a informação com risos simpáticos e, fazendo referência ao disco (e à faixa que o batiza) A Gente Mora no Agora, comenta: “A gente mora no agora com tudo o que a gente é, com tudo o que a gente traz. Esse é o momento, ‘trouxe o ontem no peito’, a gente continua esperto e bem vivo (risos)”. “A gente é a soma”, concluímos.

Na véspera de um grande show em São Paulo (nesta sexta, 06 de abril)(mais informações abaixo), esta verdadeira lenda da música popular brasileira recente comentou ao Música Pavê sobre a relação que percebe das pessoas com suas canções e sobre sua postura como um artista veterano no cenário do qual faz parte hoje.

Música Pavê: Paulo, A Gente Mora no Agora saiu já há cerca de oito meses. Essas músicas já tiveram tempo suficiente para se desenvolver mais no palco, ao longo dos shows?
Paulo Miklos: Sem dúvidas. Essa transposição do disco para o show teve dois momentos, o que foi muito interessante. Inicialmente, eu não pensava em tocar, queria ser apenas um crooner solto no palco e a banda me acompanhando. Montamos então um quarteto com teclados e tudo, e depois acabei substituindo o teclado pelo meu violão. Hoje, então, estou à frente da banda também tocando para dar uma sonoridade mais próxima do disco, porque eu compus todas essas músicas no violão. Nós estamos com uma banda agora com Michele Cordeiro na guitarra, Michele Abu na bateria, as duas fazem vocais também, e Otávio Carvalho no contrabaixo. É um grupo bastante reduzido e a gente consegue traduzir essa coisa do disco tão diversa e colorida. Está tudo bem colocado em uma maneira simples, mas a emoção é a mesma, o que cada arranjador acrescentou [no álbum] está lá. A gente preservou o principal, a essência. E a minha maior alegria é poder interpretar essas canções cada vez mais. Cada vez que a gente cante, a gente revive e tem um entendimento melhor da canção, essa coisa da música ao vivo de encontrar um público diferente a cada noite.

MP: Como tem sido a relação das pessoas com as músicas novas?
Paulo: Percebo que, nos shows, elas e cantam o trabalho novo, vem ao show conhecendo o disco, depois comentam comigo sobre as músicas e a importância que elas têm em suas vidas. Porque aí já não é mais uma coisa sua, nem a seu respeito, é compartilhado: As pessoas tomam as canções para si. Comigo é assim também com as canções que eu amo e são trilha sonora da minha vida. A grande realização é perceber que isso já acontece com o disco novo. No show, eu faço uma boa “negociação” entre os sucessos da carreira e as novidades, costurei ali um setlist que vai mantendo a liga, o contato com as pessoas, para fazer todo mundo cantar – o que eu acho fundamental no encontro com o público.

MP: Você consegue identificar se o público vai ao show mais para ver o Paulo Miklos do novo disco ou o Paulo Miklos que ouve desde criança?
Paulo: Acho que isso se mistura. As pessoas que já me acompanhavam estão ligadas no trabalho novo e gostaram do que ouviram. Muitas têm o disco e me pedem para autografá-lo depois do show. E as pessoas que não, elas estão abertas para curtir as coisas novas, mas vêm para curtir o show, porque conhecem as músicas na minha voz dessas mais de três décadas, e elas vêm também em busca disso. A gente entra num acordo (risos). Quando canto meu maior sucesso do Acústico MTV, Pra Dizer Adeus, eu faço isso sozinho no palco, contando com a força que a música melódica possui. Numa canção importante, como Comida, que é muito simbólica, eu busquei fazer um arranjo especial que combinasse com a estética do disco novo. Fiz um arranjo com uma levada de capoeira, bem diferente. Me dou essas “licenças” para fazer as músicas que as pessoas conhecem, mas de uma maneira diferente. A gente vai saborear as canções já conhecidas, vai cantar junto, mas sempre com um sabor novo, deslocado de um lugar de conforto que a gente já está acostumado. É bom para o show, sabe?

MP: Imagino que isso tenha a ver também com uma inquietação criativa que você possui, tanto que, além de músico, atua e realiza outros trabalhos. Daí você olhar para uma música que tem mais de 30 anos e saber que ela pode hoje ser viva, ou até ser nova.
Paulo: Ah, sem dúvidas, sem dúvidas. Esse show tem uma característica que eu canto mais “para fora”, ele tem um outro tom – tom de música, mas também na interpretação, sabe? Quando você muda uma levada, um ritmo, isso também mexe com o entendimento da canção, dá uma renovada. Acho que todos esses processos são super interessantes quando você vai pro palco, porque as pessoas já conhecem as músicas, mas entendem que tem ali uma coisa nova, um desejo de deixar aquilo vivo trazendo alguma novidade. E essas músicas estão também no contexto do disco novo, e as canções antigas chegam para compor um mosaico bacana. Faz sentido tudo junto.

MP: Você trabalha nesse disco com toda uma nova geração de músicos, como Silva e Emicida. Você entende algum tipo de postura que você pode ter como veterano, como alguém consagrado, de não só ser ativo na música nova, como também dar espaço para esses talentos?
Paulo: Ah, não tenha dúvida! Os grandes intérpretes que eu amo… Elis Regina, por exemplo. O que ela fez? Ela deu luz a artistas maravilhosos, por exemplo Milton Nascimento – ele mesmo um grande intérprete, um homem que tem uma voz maravilhosa, que gravou a própria obra e também dos amigos. Elis deu vazão a isso, porque ela tinha a atenção do grande público. Acho que esse é um processo da maior importância como artista. Ao mesmo tempo, eu também me renovo, amplio a minha sensibilidade, e também dou a minha contribuição como intérprete ao recriar as composições deles. No disco, tem o Tim Bernardes, que tá na casa dos vinte e poucos anos, tem Lurdez da Luz, a própria Mallu Magalhães… E, ao mesmo tempo, tem os meus ídolos, como Erasmo Carlos – no show eu conto um pouco da história da parceria, como eu enviei uma ideia para ele e surgiu a música País Elétrico. Essas coisas são divertidas e eu divido um pouco com o público, como a minha aproximação se deu com parceiros de gerações diferentes e como ela acabou gerando as canções. Eu acho divertido, porque você ouve as músicas de outra maneira quando você recebe essas informações, quando sabe a origem da canção. Porque quando você ouve que é uma parceria com o Silva, você o reconhece ali, porque sabe que ele é esse melodista incrível. Ou mesmo um Guilherme Arantes, a marca dele está nítida ali. Fica claro o encontro estético com a minha interpretação, que gera uma coisa nova. Esse disco é repleto de encontros felizes que geraram canções potentes. É isso o que eu sinto e o que eu levo pro palco. Respondendo sua pergunta, acho que isso é uma das missões do ínterprete. Eu também componho, e componho em parceria, e vou provocar essa criatividade nova, por exemplo com Emicida, mas vou colocar isso em outro ambiente – levei ele pro estúdio do Pupillo e mostrei um ijexá, ele pirou, entendeu a proposta e acabou virando a música que batiza o disco.

MP: Você também sempre pôde ser um agente de mudança através da sua mensagem – a gente citou hoje Comida, por exemplo. Minha geração cresceu ouvindo sua música e sua identidade como artista também está ligada a isso, a ser quem provoca um novo olhar para as coisas. Como é para você poder exercer esse seu papel hoje, nesta semana, nesta fase que o Brasil vive?
Paulo: Pois é, é muito interessante. Acho que a gente vive o calor de um momento histórico e, ao mesmo tempo, a gente está trazendo uma maneira de despertar a sensibilidade das pessoas. Tem uma coisa que é a “obra”, a minha maneira de cantar, que é perene, que não vai ser engolida, calada, pelos acontecimentos, ou afetada de uma maneira que a gente não possa ser sensível… enfim, acho que a minha mensagem, aquilo que eu canto, é um dado a mais da realidade, entende? A gente compartilha e comenta. Eu canto Vossa Excelência no show. Tá no meu trabalho, tá na maneira como eu cantei, tá nas canções que eu sempre cantei, uma maneira de se colocar diante da realidade. Isso pode ter um endereço X ou Y dependendo do passar do tempo ou do entendimento da situação presente, mas eu sempre busco me posicionar. Acho que nem sempre preciso ser explícito naquilo que eu digo, acho que é uma coisa da sensibilidade do público entender e reconhecer minha posição, mas nem sempre necessariamente concordar comigo. Acho que a minha vontade é ter uma atitude democrática também, porque a polarização radical que a gente está vivendo só interessa a quem não quer chegar ao consenso, a quem não quer encontrar um ponto comum e democrático – pelo menos é essa a minha percepção. Essa polarização de torcidas de futebol não me interessa. Acho que essa cultura do ódio agravou essa situação, e agrava cada vez mais, a ponto da coisa perder o controle. A gente andou assustado recentemente, de uns dias para cá, com a possibilidade de um retrocesso terrível, e eu acho que a gente vai avançando, e avançando corajosamente e com cuidado.

Paulo Milkos apresenta A GENTE MORA NO AGORA em São Paulo

06 de abril, sexta, às 21h30
Teatro J. Safra (R. Josef Kryss, 318 – Barra Funda – São Paulo – SP)
Ingressos a partir de 50 reais: Venda online http://bit.ly/PauloMiklos_TeatroJSafra
Compra pelo telefone: (11) 2626-0243
Classificação etária: Livre

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