Entrevista: Onagra Claudique

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Onagra Claudique é um projeto ambicioso – Pelo menos pra mim. Não há um termo para definir o som dos caras e muito menos meias palavras. A curto modo, é um tiro no peito dos desavisados – ou você morre de amores de primeira ou você se apaixona paulatinamente a cada nota. Não há opções.

O mais interessante, quando se fala de amores repentinos, é saber que ele vem de uma forma simples, na forma de EP, muito conveniente ao seu próprio nome, A Hora e a Vez de Onagra Claudique – Um registro com três músicas que é, como o próprio nome sugere, ideal para você conhecer o projeto. Agora, os caras querem ir mais longe, querem lançar um álbum completo, Lira Auriverde, e estão fazendo um financiamento coletivo para alcançar um sonho não só deles, mas meu e do editor-chefe do Música Pavê também.

Eu estou bem eufórico com essa possibilidade, principalmente por causa do que veio depois do A Hora e a Vez de Onagra Claudique. Gosto muito da estética de Arrebol, single lançado no ano passado, e da visão Trip Hop que realizaram da canção Pernas da banda carioca Ventre para o projeto /remix. O que vem por aí? Não faço ideia.

O Música Pavê conversou um pouco com Diego Scalada e Roger Valença sobre o Lira Auriverde (que começa hoje seu processo de financiamento coletivo no Catarse) e o resultado você pode ver abaixo.

Música Pavê: Cada vez mais artistas se utilizam do financiamento coletivo para conseguir lançar seus álbuns/projetos. O que isso representa de uma forma geral para você e para o mercado da música em si?

Roger: Creio que existem duas facetas distintas, ainda que correlatas, de extrema importância para o cenário da música atual em relação a isso. Graças à eliminação de terceiros no financiamento de projetos (gravadoras ou coisa que o valha), as bandas se aproximam muito de seu público, apelando a uma espécie de afeto que, ao meu ver, é bastante saudável para essa relação. Isso também barateia o processo como um todo e elimina o lucro exorbitante de intermediários. Além disso, não existem mais tantas restrições criativas de adaptação mercadológica e as bandas ficam mais livres para serem o que são realmente, sem terem que se encaixar num padrão imposto por outrem para vender mais. Claro, tudo isto dito de modo geral. Eu vejo tudo isso com muitos bons olhos. É claro que, de certa forma, a Onagra Claudique acaba de chegar nesta história, este é nosso primeiro álbum completo. Sinto uma desconfiança muito grande de pessoas acostumadas a um outro tipo de lógica, mas sou entusiasta.

Diego: A forma de consumo e difusão da música mudou bruscamente com a popularização da Internet simultaneamente à debilidade do mercado fonográfico. Ao passo que a tecnologia atual permite produzir e gravar a si próprio, as formas de se obter recursos através do labor artístico também tiveram de ser repensadas afim de que a viabilização de um disco fosse possível. De início, não via o financiamento coletivo com bons olhos por uma questão de princípio ético, por achar que as pessoas não deveriam pagar por um produto futuro e sobretudo incerto do ponto de vista estético. Com o passar do tempo, mudei de opinião, as artes de um modo geral sempre sobreviveram graças a um mecenas e, se antes este papel era desempenhado por uma gravadora que se interpunha entre o artista e o público, hoje, através do financiamento coletivo, o público passou a assumir um papel relevante e atua de forma direta sobre a obra, uma vez que a disponibilização dela depende de sua ajuda. Portanto, o financiamento coletivo dispensa o “atravessador” e aproxima artista e público, conferindo maior autonomia a ambos.

MP: A versão Trip Hop de Pernas para o projeto /remix tem a ver com o seu novo álbum? Esse estilo é algo que podemos esperar em alguma faixa no seu próximo lançamento?

Diego: Acho que estamos cada vez mais aceitando o que a tecnologia tem a nos oferecer e, nesse sentido, o projeto /remix tem sim a ver com o disco, pois estamos tentando sair de um modelo convencional de criação ao incorporar alguns elementos eletrônicos nas canções, além disso estamos experimentando as possibilidades sonoras determinadas pela mixagem.

Roger: Para o álbum novo, não tentamos nos encaixar em nenhum estilo pré- formatado. Nem pensamos sobre isso, na verdade, resolvemos deixar as coisas tomarem forma naturalmente. Existe uma ampliação de horizontes em relação ao universo da Hora e Vez de Onagra Claudique, nosso primeiro EP. Nos distanciamos bastante do Folk, por exemplo. Na verdade, existe uma música que eu acho muito próxima do Trip Hop. Mas isso é por conta das minhas referências particulares, acho difícil que alguém se refira ao Trip Hop para descrever alguma música do Lira Auriverde.

MP: O EP A Hora e Vez de Onagra Claudique e o single Arrebol vieram com um “livro de letras” ao invés de um simples encarte. Qual é a sua relação com a arte? E por que sair do senso comum pode ser um motivador para o consumo de uma arte não só ouvida, mas também vista?

Diego: Creio que temos uma relação natural e inevitável com a arte, o Roger é ator e viveu o teatro muito intensamente, eu sou apaixonado por literatura e talvez a música tenha sido uma válvula de escape, uma resposta à condição passiva de mero leitor.

Roger: O livro de letras vem da preocupação em demonstrar esmero em todas as etapas do processo de confecção do trabalho. Tivemos a honra de trabalhar com pessoas muito cuidadosas, extremamente sensíveis e inteligentes que transcriaram a lírica das composições para suas áreas de atuação. Neste sentido, temos Fabio Pinczowski e Mauro Motoki na produção, além da participação sempre pertinente de Renato Spinosa nas gravações e nos ensaios. Para a área visual, o trabalho como Marcos Almeida sempre foi muito fluido e tranquilo. Todas as capas, pôsteres e encartes são obra dele.

Diego: Damos total liberdade para que ele crie sem qualquer interferência nossa. Trata-se então de uma maneira de aplacar um pouquinho nossos anseios artísticos não só através da música, mas também através das artes visuais e do texto escrito. Além disso, a questão do livro de letras foi uma solução prática, ainda não fizemos as pazes com o refrão, se você analisar nossas letras, independentemente de um juízo crítico, verá que elas quase nunca se repetem, são letras longas e por isso tivemos de enquadrá-las em um modelo. O resultado foi um encarte expandido.

MP: O que motivou a Onagra sair de uma dupla e passar a ser oficialmente um quinteto?

Roger: Nossa transição para o palco.

Diego: Desde o início do projeto, nosso intuito era ter uma banda e a ocasião de nossa estreia nos palcos do Sesc Pompeia concretizou esse desejo, o palco ficaria muito grande para nós dois. Tudo bem tocar as três músicas do EP com voz e violão, mas tínhamos outras canções compostas e sem registro, daí a necessidade de engordá- las. Para isso, convidamos nossos amigos músicos e ensaiamos freneticamente para a apresentação, ao fim do processo não havia como dissolver a união que estabelecemos desde então e naturalmente a coisa foi se encaminhando para um esquema de banda.

MP: O que os produtores trazem de novo nessa nova etapa da banda? Podemos esperar guitarras mais distorcidas ou mais baladas?

Diego: Tivemos sorte grande ao conhecer o Fabio Pinczowski e o Mauro Motoki, nossos produtores. Nós lhes apresentamos nossas composições, em contrapartida eles propõem e sugerem, possuem uma visão externa e captam o que não conseguimos por estarmos muito imersos no processo de criação. O trabalho deles está sendo muito relevante na confecção do disco. Eles nos fizeram entender que poderíamos nos abrir mais à forma como concebemos as músicas, como poderíamos distribuir melhor os nossos arranjos entre os outros instrumentos. Justamente por isso o disco está bem equilibrado, finalmente assumimos as guitarras em detrimento do violão, mas os teclados e sintetizadores passaram a ter uma participação maior nas melodias.

Roger: Já trabalhamos com o mesmo time no nosso EP. A diferença essencial de um trabalho para o outro imagino que seja o protagonismo dos violões. Para A Hora e Vez, havíamos montado, em todas as três músicas, violões que se entrelaçavam nos arranjos. Para o Lira Auriverde, graças as sugestões deles, não vejo o protagonismo de um instrumento ou outro. Demos muita ênfase às letras, mas para os arranjos resolvemos experimentar mais guitarras, pedais e sintetizadores. Como este novo trabalho se equilibra entre as funções delegadas de todos, e, além disso como eu e o Diego temos estilos que se complementam, o álbum está bem balanceado entre baladas, músicas mais animadas e outras com distorção.

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MP: O que vocês podem adiantar do novo álbum? 

Diego: Um álbum que representa um longo processo de gestação. Trata-se de um trabalho bastante heterogêneo uma vez que ele compila algumas músicas muito recentes e outras composições demasiadamente antigas. O Lira é o reflexo fiel de nossa curta trajetória musical, um resumo do que fizemos até o momento.

Roger: Serão dez músicas, entre elas Arrebol, que lançamos como single no ano passado.

MP: A Internet trouxe acessibilidade tanto para o artista quanto para o público em geral, porém, como se sabe, muitos usuários da rede são ociosos e não procuram a informação como deveria. O que vocês vão fazer para que as pessoas conheçam o trabalho vocês?

Diego: A Internet talvez tenha proporcionado um excesso de acessibilidade, uma vantagem ambígua para o artista. Diariamente, somos bombardeados por informações e, por mais dirigida que ela seja, não se trata de uma mensagem direta, destinada a apenas uma pessoa. Talvez pela primeira vez na história a quantidade de referentes é muito maior do que as referências propriamente ditas; nutrimos o hábito pela leitura mas a quantidade de títulos ou autores que já ouvimos falar é imensamente maior do que aqueles que conhecemos por ter lido; ouvimos música mas a quantidade de bandas que sabemos existir por nome é infinitamente maior que aquelas que de fato ouvimos, trata-se de um processo inevitável. Os usuários da rede tentam distinguir o conteúdo que pretendem absorver devido a dificuldade de conhecer razoavelmente bem um assunto que lhes interessa, há muita oferta porém a capacidade da demanda não está à altura. Por tudo isso, espero que as pessoas curtam o disco e possam dividi- lo com alguém, creio que esta é a forma mais efetiva de divulgação.

Roger: É difícil para mim tentar prever o comportamento alheio. Mas concordo, o público hoje, creio que justamente pela liberdade de escolha se tornou vítima de uma espécie de paralização diante da oferta infinita. Nosso público é muito afetuoso e bastante cativo, não tenho nenhuma dúvida em relação à recepção deles; como o Diego colocou, a indicação de quem já conhece o trabalho é essencial. Além disso, bem, creio que a oferta visual é mais apelativa para o público da internet. Desta vez faremos um videoclipe, juro (risos).

Saiba mais sobre o financiamento coletivo de Lira Auriverde.

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