Entrevista: O Terno

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(Curta mais da série 2014 Define no Música Pavê)

Cada vez mais, nos deparamos com bandas que mostram que a música brasileira é repleta de coisas boas, independente do gênero. Começamos nosso especial com a entrevista com a banda 5 a seco, nomes de destaque na MPB, mas, ao falarmos de Rock, a banda que mais representa no cenário atual do país certamente é O Terno.

Este ano foi o ano de estreia de O Terno, segundo disco da banda. O álbum é muito marcado pelo psicodelismo, que gera uma abundância de efeitos tanto nos instrumentos, como nas vozes. Além de todas as preocupações, está também a intenção de dizer algo de uma forma que soe autêntica de um escritor que nos confessa não terminar os livros que começa.

Essa foi uma das coisas que aprendemos sobre Tim Bernardes e o trio nesta entrevista, sobre as composições, produção e escolha de timbres que marcam um dos melhores lançamentos de 2014, feito por uma banda que define esta época e, quiçá, uma geração inteira.

Música Pavê: O Terno tem sido apontada como a banda renovadora do cenário musical paulista desde 2012. Agora já estamos de cara com 2015, vocês consolidados com o segundo álbum. Como vocês ficam em relação a tudo o que é dito sobre o trio?

Tim Bernardes: Ficamos bem felizes agora com o segundo disco sendo recebido. Gostamos do primeiro, mas sabíamos tinha muita coisa que a gente queria explorar e mostrar, mas que, por falta de tempo, infra e estrada, ficaram prum segundo. O legal é o pessoal ter curtido o primeiro e ter “pagado pra ver” o que vinha dali. Pra gente, que tava louco pra pirar em tudo que a gente pirou no segundo álbum, foi legal esse lance da banda virar uma “aposta”, porque era uma expectativa em cima da gente, mas uma expectativa boa, em que a gente tava feliz e animado pra realizar o próximo passo.

MP: O disco O Terno, lançado neste ano, colocou vocês além do rock brasileiro, vanguarda, ou indie. O humor tão evidente no primeiro disco ficou mais sutil (às vezes implícito, mais disfarçado). Vocês, como artistas e responsáveis pela produção desse disco, como veem o cenário em que vocês estão imersos e tudo o que ele representa?

Tim: Acho que hoje em dia, em que tudo é super rápido e efêmero, a vontade de fazer algo realmente legal e caprichado foi motivador pra fazer um disco que espero que daqui 40 anos ainda esteja sendo baixado por molecadas do futuro (risos). Um lance legal que o “indie” (seja lá o que isso quer dizer) trouxe pra cena foi de você fugir do padrão e investir nas suas peculiaridades. Infelizmente, muita banda no indie entrou muito na onda de copiar a peculiaridade de quem conseguiu fazer isso de um jeito bacana, seja Strokes, Los Hermanos, Arcade Fire ou o que for. E muitas outras simplesmente se deslumbraram só com o lado estético e esquisito do negócio e não foram pra muito além da guitarra desafinada (e nada contra guitarra desafinada também!). Por outro lado, cada vez mais surge banda investindo num caminho próprio e desenvolvendo isso pra níveis mais profundos, amadurecendo o próprio caminho. Isso é o caso de muita gente legal na cena hoje, acho que O Terno tem disso também,

MP:A dinâmica na música virou uma carta na manga d’O Terno. O disco (quando ouvimos no fone) é muito marcado pelo contraste. Como foi o processo de levar essas composições ao estúdio?

Tim: Sim! Ainda mais a gente que é um trio. A dinâmica é uma técnica que enriquece a sonoridade pra gente, uma vez que a gente não tem muitos elementos soando juntos. A gente sempre se preocupa em passar essa dinâmica que a gente tem tocando pras gravações. E sem medo de tocar muuuito baixo e muuuuito alto ao longo de uma música ou do disco como um todo. Não gostamos de comprimir e igualar esses volumes quando essa não é a proposta. Acho que isso traz um refresco e uma atração pra audição, essas quebras te puxam pra canção e quando ela acompanha a letra as coisas vão se encaixando ainda mais!

MP: Como foi a experiência de escolher os timbres e efeitos de mixagem presentes no álbum?

Tim: Isso é a coisa mais legal que tem! A atenção aos timbres era total, tudo tinha que soar lindão, ou não seguíamos pra próxima coisa. Ter um timbre na cabeça e dar um jeito de chegar exatamente nele, ou descobrir novos sons que você goste nesse caminho. Em cada uma das músicas, a gente levantou o timbre de tudo totalmente do zero, equalizamos, comprimimos, colocamos os ecos, reverbs e o que mais a gente queria até a música soar “mixada” e, aí sim, começávamos a fazer os takes.

MP: Além de toda essa dedicação sonora, as letras também tem protagonismo no disco. Vocês estão preparados para serem citados em provas de filosofia do ensino médio como pensadores contemporâneos?

Tim: (risos) Cara, sabe que a letra de 66 já está nuns livros didáticos? Eu acho isso super legal. Como o que eu falei nos timbres, as letras também ter que dizer algo, e dizer de algum jeito criativo também, senão é melhor jogar fora e começar de novo (e eu joguei fora e filtrei muita coisa até chegar nessas canções)(risos).

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MP: Medo do Medo contou com a brilhante participação de Tom Zé em uma parte bem macabra (que me traz uma imagem referente ao Zé do Caixão, até) e chega a dar um tilt no cérebro do ouvinte. Essa é uma das músicas mais reflexivas, internas, quiçá pessoais, do disco. Você pode contar mais sobre essa letra?

Tim: Cara, é uma letra sincera sobre algo que eu estava sentindo uma época. É legal ver que as pessoas se identificam com ela, embora ela seja bem solitária e pessoal. Essa coisa de você sentir que sua mente é forte o suficiente pra entrar numas nóias erradas e te paralizar. Vai dando um medo das coisas que você tem na cabeça e pra onde isso pode te levar, os caminhos que o pensamento vai tomando quando você deita sozinho na cama meio deprê antes de dormir. A gente queria que a música tivesse umas coisas faladas e sussurradas assustando ainda mais o ouvinte, o Tom Zé caiu como uma luva pra fazer esse papel (risos).

MP: Vanguarda, em certo ponto da música, os efeitos de overdubs chegam a beirar a loucura e, para finalizar, se ouve em alto e bom som “para de viajar”. O que mais está inaudível na faixa, ou nas entrelinhas, que podemos saber?

Tim: Essa interferência maluca que tem no meio da música é uma colagem sonora de tracks das bandas do [selo] Risco que também gravaram lá no estúdio Canoa. A gente não tinha nem tempo nem grana pra gravar cordas, madeiras e metais pra dar essa textura nesse momento… Mas o Memórias de um Caramujo tinham gravado coisas incríveis! (risos) E tudo ali no computador do Gui Jesus Toledo. A gente simplesmente roubou umas orquestras do Memórias, encavalou, pôs ao contrário… As cordas de Chegou com sopros de Nina, baita mistureba. Tem também pedaços da introdução do Baile da Pesada do Charlie e os Marretas, rola no início da doidera “a polêmica dos bailes…”. Tem track de voz do disco da Luiza Lian que a gente ainda nem lançou (risos). E acaba com a voz do Vac no Nina ali no “melhor parar de viajar/(cê pode ter quantos filhos você quiser…)”.

MP: Quais são as referências principais desse disco em relação ao som? E já voltando a falar sobre as letras, quais autores e livros vocês leem?

Tim: Sentamos antes de gravar e fomos vendo faixa a faixa qual era a referência sonora que a gente buscava. O Cinza tinha essa onda riff Pond/Tame ImpalaEu Confesso, tinha uma linha meio Abbey Road/Pet Sounds/Kinks; Brazil tinha a onda do disco de 1970 do Milton; Como Eu me Iludo ia numa direção meio Joe Cocker/Etta James/Foxygen; Desaparecido era uma coisa entre Martha My Dear e Grizzly Bear. Era bem variado, ia do que cada canção e cada arranjo sugeria. Eu pra fazer as letras num me inspiro muito em livro não… Sou um péssimo leitor, num consigo ter paciência de terminar livros que não sejam biografias de bandas que eu adoro (risos). Acho que a maior referencia vem de resumir e fazer soar bem uma idéia curiosa que eu tenha em mente, ou tentar contar alguma historinha. A referência vem mais de letra de música ou de filme do que da literatura. Não é qualquer texto que encaixa bem numa melodia, gosto de atentar a isso pra num parecer aquelas músicas que parece uma letra em português numa melodia que pedia uma letra em inglês.

MP: A ideia de prensar LP vem de um gosto pessoal? Caso a resposta seja sim: quais são os discos favoritos do seu acervo? E qual você pediria para o Papai Noel?

Tim: Sim! Adoramos vinil, a arte, o encarte, o som… Tanto nossas bandas atuais favoritas quanto nossas referências sessentistas nós temos em vinil. Eu tenho como eternos favoritos meu vinil do Gil Gilberto Gil (1968), o Pet Sounds do Beach Boys e o Mutantes. Queria do Papai Noel esse ano uma cópia do The Who Sell Out e algum vinil da Sharon Jones and The Dap-Kings!

MP: Fazendo uma retrospectiva típica desta época, 2014 foi um ano com mais dias cinzas ou “brancos estourados” para O Terno, para o Brasil e para o mundo?

Tim: Esse disco puxou a gente pra essa estética sim. De ver cor no que tá quase preto e branco. Ver essa neblina como uma coisa onírica surreal, boa de viajar em cima. Pode ser um contraponto com épocas mais coloridas do ano passado (risos), mas sem perder a cor.

MP: Que outros artistas vocês colocariam no nosso especial de fim de ano do Música Pavê?

Tim: Memórias de um Caramujo, é uma banda muito rara e peculiar, o disco novo deles é demais. Alice Caymmi e o disco dela Rainha dos Raios, a produção do Diogo Strausz nesse disco é das coisas mais relevantes que ouvi esse ano, nacional e internacionalmente. Mac Demarco foi uma descoberta incrível pra mim esse ano! O Hiatus Kaiyote é outra banda gringa que sempre me choca a cada lançamento… E mais uma série de banda legal aqui do Brasil: Baleia, Magalhães Trago Seu Amor, Jonatta Doll, Charlie e Os Marretas, Juçara Marçal, Russo Passapusso, Séculos Apaixonados… Ih, um monte!

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