Entrevista: Nevilton

Abrir para o Green Day, ganhar um Prêmio Multishow e figurar em diversas listas de “Melhores de 2011” não é pra qualquer um – não mesmo. Quem conhece o trabalho da banda Nevilton não chega a se surpreender com esse currículo, tanto pela qualidade de suas músicas, quanto pelo seu talento em cativar e fazer sorrir. Eu os conheci durante seu próprio show em setembro passado e, ainda mais por esse primeiro contato direto no palco, sempre que ouço seu nome já me vem à mente a empolgação presente em suas músicas ao vivo e no álbum De Verdade (2011). Me encontrei com o próprio Nevilton Alencar – o paranaense que dá nome à banda – para conversar sobre seu trabalho,  antigos e novos videoclipes e o show que fará neste próximo sábado em São Paulo com a 14 Bis – ocasião que já seria uma grande honra para qualquer um, mas principalmente para alguém tão apaixonado por música quanto ele.

Música Pavê: Como você vê a cena Indie em que o seu som está inserido e os rótulos que as pessoas colocam no seu trabalho?

Nevilton: Não só o Indie Rock, mas toda a cena alternativa do Brasil está muito rica.  A gente sempre encontra coisas excelentes, com tantas novas plataformas e sites em que você consegue entrar e tirar uma “pérola”, sabe? Tem muita gente boa por aí. Pra gente, essa perspectiva Indie é muito mais comportamental quanto a como a gente lida com as coisas na banda do que sonoramente. Quanto ao nosso som, acho que a gente é super pouco Indie sonoramente. Nosso som é super cru, é um som brasileiro de trio. É rock brasileiro, indie rock brasileiro, Indie Brock, não sei (risos). Acho que até se a gente cantasse em inglês, seria um rock brasileiro em inglês, porque a gente não conseguiria soar inglês, ou americano, seria sempre essa coisa maluca daqui, o som do “Neviltonlândia” (risos).

MP: Como que é isso de ter uma banda com o seu nome? Deve ter gente que se confunde, que acha que o Nevilton é só você quando é ao mesmo tempo a banda.

Nevilton: Ao mesmo tempo, Nevilton sou eu (risos). O propósito inicial foi mesmo esse, era trabalhar as minhas composições, é um trabalho pra dar ênfase em algo que eu já tinha com outras bandas antes. Então isso foi natural. Mas, ao mesmo tempo, não tem como falar que não tem a característica de quem também tá tocando. Você viu um show com um músico convidado na bateria, então você viu “um” show do Nevilton. É outra coisa com a formação oficial, é outra coisa com algum convidado, então são vários Neviltons ao mesmo tempo, várias perspectivas diferentes. Mas não me preocupo com isso não. É igual o lance com o rock: Se quiser achar que Nevilton é banda ou um projeto solo, tanto faz, a gente continua feliz.

O Morno

MP: Por que vocês decidiram trabalhar músicas tão animadas nesse primeiro disco?

Nevilton: A gente escolheu esse repertório pelo momento que a gente tá, se apresentando como banda, passando as dificuldades que iniciantes tem, tocando em bares barulhentos em que todo mundo tá bebendo e falando alto, e não daria certo tocar uma música mais calminha. Agora, que a gente tá se apresentando também em teatro, já dá pra explorar outro repertório – eu tenho umas músicas menos felizes também, elas ainda vão sair da gaveta uma hora. Mas isso prevalece também do nosso gosto, sabe? Eu prefiro músicas mais felizes, é gosto. E também sentimos uma resposta mais legal com a experiência com outras bandas pelas músicas mais animadas, o pessoal curtir e cantar junto, e ver alguém twittar: “Tô ouvindo sua música e melhorou meu dia”. Isso é super legal, nos conforta bastante e nos faz querer fazer mais disso, de trazer algo que melhore o dia das pessoas.

MP: Como que é o seu processo de composição? Você senta pra escrever ou as ideias vem e você precisa criar naquela hora?

Nevilton: Um pouco de cada. Eu gosto muito do exercício da composição, acho que igual o exercício de expressão geral, como você praticar o texto jornalístico para ficar mais fluente naquilo, é o mesmo com fazer uma música ou uma poesia, é igual praticar um idioma ou qualquer outra coisa. Aí, comigo acontece um pouco dessa mistura. Eu tento sentar e escrever a partir de tentativas, ao mesmo tempo que eu tô lá tomando banho e tenho aquela super ideia, daí eu fico lá cantando até sair do chuveiro para não esquecer (risos), ou estar na estrada e alguma coisa legal acontece e te inspira. A própria vida, principalmente na cidade grande, proporciona muitas situações novas e as dificuldades também são inspiradoras.

MP: Você é do tipo que pensa em música o tempo todo?

Nevilton: O tempo todo. Eu durmo escutando música, acordo escutando música, quando vou correr, quando dirijo, ainda arranjo tempo de ir em show,  e ouço o tempo todo quando eu tô trabalhando – melhor ainda se o retorno estiver bom (risos). As pessoas acham que eu sou hiperativo, porque eu tô o tempo todo batucando.

MP: E você, às vezes, se cansa e precisa de um silêncio, um tempo sem música?

Nevilton: Às vezes eu acho que eu que canso os outros falando só de música, sabe? (risos) Vou numa festa, converso com umas 40 pessoas e, no fim da noite, vejo que só falei de música, seja do meu trabalho ou do som dos outros. Aí eu penso: “não perguntei nem da mãe do cara, se ela melhorou” (risos) Mas ouvir muita música não me satura, não me enche o saco não. Tô feliz ouvindo música.

Delicadeza

MP: Como foi fazer o clipe Delicadeza? Foi bem diferente de fazer O Morno, não é?

Nevilton: Foi sim, eu sempre sonhei que o meu primeiro videoclipe fosse algo na estrada, a gente já tinha rodado pra caramba e O Morno trouxe imagens da gente tocando em várias cidades – tem a gente tocando em Maringá (PR) e a gente tocando em Maceió (AL), acho isso muito legal.  Aí Delicadeza a gente fez aqui em São Paulo e foi uma experiência super suave, queria que todo clipe fosse assim. A gente trabalhou com o Marcelo Perdido, que é um cara incrível, ele já veio com as ideias e soube trabalhar com o que a gente tinha em mão, com pequenas ideias do cotidiano. E todo mundo pergunta se as flores eram gostosas: Não, elas eram meio amargas (risos). Sou super a fim de trabalhar com ele no futuro de novo. A gente vai lançar agora o clipe de Balé da Vida Irônica, que foi feito com uma turma lá de Brasília, o coletivo Esquina, que a gente fez assim também, com o que a gente tem, tocando air instruments andando pela cidade, e com um lance muito especial que é participação das pessoas pela Internet, que mandaram seus vídeos cantando a música, e participação do pessoal do Autoramas e do Móveis Coloniais de Acaju, que acabam refletindo o momento em que a música brasileira está. Essas experiências de poder estar com outros músicos sempre enriquecem bastante alguém.

MP: Então, fala um pouco pra gente da oportunidade de tocar com o 14 Bis neste sábado.

Nevilton: Doideira, né, cara? (risos) É uma ocasião que eu não sei muito o que esperar quanto ao público, porque eu vejo o 14 Bis em um universo que dialoga também com o rock, que teve sua época de ser a música jovem brasileira, eu imagino que eles deviam estar na mesma pegada que a gente hoje. É algo diferente da perspectiva de abrir pro Green Day, que mesmo sendo uma galera que não era tão novinha, ainda tinha aquele comportamento juvenil. Eles, desde novinhos, já eram bem maduros musicalmente falando. Eu acredito muito na riqueza da música brasileira e quem gosta de uma música bacana tem possibilidade de curtir outros sons, mesmo os que não são do mesmo estilo. Então, vai ser um público muito variado e vai ser muito legal a gente poder mostrar nosso material pra eles. A gente vai fazer um show igual todos os outros, trazendo toda a energia de sempre no palco, só que dessa vez sem quebrar nada, sem tacar fogo (risos).

MP: E sua participação na coletânea Re-Trato do Los Hermanos? Como foi a ideia de fazer uma videosong pro teaser?

Nevilton: Eu gosto muito do trabalho dos caras, respeito pra caramba o som deles, esse lance contemplativo de ver as coisas. Já ouvi muito Los Hermanos, sempre achei muito bacana os timbres, os arranjos e a produção do Kassin – que é um cara muito “prafrentex” no trabaho com música . E Fingi na Hora Rir eu acho demais. Eu fiz uma videosong, mas a versão final vai ser assustadora. Eu tinha que fazer o teaser logo, mas tava sem os meninos da banda, aí eu gravei num sabadão eu tocando o violão, outra linha de violão, a percussão, botei tudo em cima e mandei. Mas, na hora de gravar de verdade, ficou bem diferente, vai dar o que falar. Vai ter gente que não vai gostar, naquela pegada “aah, tava mais legal no vídeo” (risos), mas a versão tá bem mais animada, numa referência bem californiana de rock, eu gostei bastante.

Fingi na Hora Rir (cover do Los Hermanos)

Show: Nevilton + 14 Bis 

Sábado, 10 de março de 2012

Cine Joia: Praça Carlos Gomes, 82 – Liberdade

Abertura da casa: 21h00

Horário show de abertura: 22h00

Horário previsto do show: 23h00

Valores: R$40,00 (pré-venda) e R$80,00 (inteira, vende meia-entrada)

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