Entrevista: Mauricio Pereira

foto por rui mendes

Em última análise, quando me chamam de cronista, eu diria: Sou um antropólogo amador, um geógrafo amador, e quase um compositor amador também. Sou um amador”. Humildade, inquietação e muita poesia marcam a obra de Mauricio Pereira, compositor paulistano que deu à nova geração da música brasileira todo um embasamento inspirador – sendo frequentemente citado como referência pela maior parte das bandas que mais ouvimos hoje -, além de ter sido responsável (literalmente) por conhecermos um dos novos nomes mais influentes na nossa cena autoral: Tim Bernardes (O Terno), seu filho mais velho com quem divide o projeto Pereirinha e Pereirão.

Com uma carreira não-linear em termos de popularidade, o artista falou ao Música Pavê sobre sua história, seu diálogo com a nova geração de músicos no país e seu maior sucesso, Trovoa, música regravada desde Metá Metá até A Banda Mais Bonita da Cidade, passando por Maria Gadú. Bom de papo, ele é o sonho de qualquer entrevistador: Desenrola qualquer assunto a partir de um pequeno estímulo/pergunta e, no mesmo jeitão que conhecemos de suas músicas, conecta ideias e fatos em panoramas complexos, ricos e sempre muito agradáveis em palavras que, mesmo escritas, têm sotaque.

A entrevista aconteceu por telefone às vésperas do Festival CoMA, em Brasília, aonde ele leva o show de seu mais recente disco, Outono no Sudeste (2018) neste sábado, às 21h30.

Música Pavê: Com tantas décadas de carreira, como você escolhe hoje os músicos com quem quer trabalhar? 

Mauricio Pereira:  Eles precisam entender o que que a minha poesia está dizendo. Porque, muitas vezes, quando vou pedir um arranjo ou a maneira de tocar, eu conto uma história. Eu não falo “aqui é um sol com sétima”, “aqui você toca forte”. Eu quero músicos que, se eu chegar e falar: “Isso aqui acontece em uma noite de tempestade, o cara tá sozinho, tomou um pé na bunda, encheu a cara, ele vai cortar os pulsos, mas, na hora H, ele fala ‘foda-se, eu vou pra frente’”, são músicos que tem que ter a sacada de transformar literatura em pegada. Então, eu acabo trabalhando com uns caras muito safos. Os do Pra Marte eram assim, e essa banda aí que tá comigo desde o Pra Onde que eu Tava Indo também são caras que tem essa pegada. Gosto de ter na banda músicos que tenham conceito na cabeça, sabe como é? Que eu possa falar com eles como se eu fosse diretor de cinema, mais do que um maestro.

MP: Seu nome é cada vez mais citado entre a nova geração na cena autoral, principalmente independente. Por que você acha que influencia tanto esses novos músicos?

Mauricio: Bom, quando eu saí do Mulheres Negras, em 91… Os anos 1990 foram horríveis, eu lancei dois discos e fiz três filhos, foi um pânico ter tudo isso pra sustentar. Quando fiz o Na Tradição, não tinha prática, não conhecia os músicos, não entendia a cena. A gente estava na Warner, tinha sempre um produtor, né? Era outro mundo. Eu achava que eu ia gravar um disco de canções e que eu ia tocar na novela. Daí que eu fui entender que o mundo era diferente disso. O fato é que, nos anos 90, estava rolando uma volta da MPB e o fim das grandes gravadoras, e ainda não tinha Internet. Então, ser músico independente era andar meio no limbo. E eu vinha de uma banda muito louca, as pessoas eram muito desconfiadas do meu texto, não conseguiam entender que eu sou um poeta acima de tudo. Foi muito difícil me impor, porque as pessoas falavam “esse cara é aquele maluco que tocava saxofone de ponta cabeça”, demorou muito pras pessoas entenderem que eu era um letrista… sei lá, de um certo refinamento. E um cara muito introvertido, de uma poesia muito interna também. Foi a época quando explodiu o axé, quando a música pernambucana chegou, apareceu a Nova MPB – Chico César, Zélia Duncan, Lenine, Paulinho Moska – e eu escrevendo as minhas canções com pé no rock’n’roll, com meu texto paulistano, que às vezes é muito áspero, muitas vezes elas tinham uma melancolia ou algum humor, sem aquela doçura da canção clássica da MPB. Eu perdi muito público quando saí do Mulheres. O Mergulhar é minha procissão de fé como compositor e cantor, é um disco muito especial, e é um disco que fracassou. Ele saiu um pouco na mídia, fez alguns shows e tal. Lancei ele em 98. Em 2000, eu não arranjava trabalho de jeito nenhum, estava fazendo tudo o que era biscate por aí. A gente sabia que tinha feito um disco bom, mas a gente estava deprimido, parou até de tocar junto. Eu cheguei a anunciar meu saxofone. Acabei não vendendo, mas falei que só ia tocar quando me chamassem.

O que muda tudo foi a cidade de São Paulo ter mudado de caráter dos anos 90 pros 2000. De uma cidade estrangeira dentro do Brasil, ela passou a ser uma referência. O Brasil inteiro passou a vir a SP, e essa música louca, atritosa, esquisita, racional, com muito intelecto, muita cabeça e muita mistura, ela passou a crescer. Ela veio com o graffiti, com a parada gay, com um mundo de modernidades que botaram SP central no Brasil. Não era assim nos anos 90, que era praia, futebol e carnaval. Depois ficou parada gay, Virada Cultural e Baixo Augusta. E o sotaque e a sintaxe paulistanos, né? A Internet aumentou de velocidade, começou a ter música pela Internet, e essa cena paulistana eram caras que tinham me ouvido nos anos 90. Metá Metá, Rômulo Fróes, Rodrigo Campos… alguns me conheciam do Mulheres, mas alguns me conheciam do meu trabalho solo, que, de algum modo, foi espelho pra eles. Quando comecei a fazer o Pra Marte, pensei que era meu réquiem, meu último disco, “vou fazer e vou pro mato, não tem lugar pra mim”. E é o disco que tem Trovoa, cara. Onde achei que era o fim da minha carreira, era um renascimento pela mão dessa cena toda, essa primeira geração da paulistagem toda aí que me trouxe. Em 2008, a Casa de Francisca me chamou pra tocar o Mergulhar, porque tinha gente querendo ouvir como não tinha na época do lançamento. Depois, levei esse show pro exterior, toquei esse disco no Bananada. Eu renasci com essa cena nova. Teve a primeira geração, que é a do Metá Metá, depois tem a nova geração, que é O Terno, Liniker. Aí a luz que o Martim (Tim) trouxe pro meu trabalho… a Internet mudou, passou a ter a rede social – e eu sou bom de rede, no sentido de saber postar. Eu me formei jornalista, pra alguma coisa tinha que servir, né? Bem ou mal, sempre foi algo que eu sabia usar. Eu acho que os jovens me trouxeram à tona, e eu vi neles muito valor. Lembro que eu gravei um CD com MP3 de todo o pessoal que estava aparecendo: Vanguart, Karina Buhr, Tulipa, Céu, Los Porongas… Eu voltei a ter tesão de ouvir música. Não sou um grande ouvinte, mas, de repente, apareceu um jeito novo de fazer canção que me deu muito prazer de ouvir. Então, foi uma coisa de dois lados. Me deu alegria de ouvir e eles me chamavam pra tocar.

A minha carreira tem uma velocidade de cruzeiro muito lenta. Tem a ver com eu ser um letrista, ser introvertido, com eu não ser arroz de festa… sou um cara mais pra dentro. Tem hora que eu vou pra roça, tem hora que eu tenho que cuidar de um filho. Eu comecei tarde, com 25 anos, não aos 14, como o Martim. Eu sou um cara com uma trajetória muito solitária. Por mais que tenha tocado com muita gente, experimento, visto muita coisa, meu caminho é meio andarilho. E, olha, eu ainda tenho a sorte de não saber tocar violão, porque se não eu seria mais solitário ainda, faria meus shows sozinho, né?

É difícil me classificar. Às vezes, o cara fala “ah ele é da Vanguarda paulistana”. Não sou. Quando eu fui ouvir Itamar Assumpção, eu já tinha a cabeça feita, sabe? “O cara da nova canção paulistana” – não sou, eu sou de antes. “O cara é MPB”, não sou MPB. “É rock’n’roll”, não sou rock’n’roll, não sou nada direito. Sou um híbrido. O que me faz bem amado por todas as tribos, mas, na noite de Natal eu tô sozinho, sabe como é? Não tenho uma pátria exatamente. Acho que, por eu ter que sobreviver e me sustentar com coisas fora da música – eu faço locução, apresento casamento, produzo não sei o quê, escrevo texto pra não sei o que lá -, acabo em muitos momentos não sendo artista. É como se minha alma saísse do meu corpo, só que, quando ela tá longe da arte, de repente ela faz um texto poético. Então, a minha trajetória é atípica. Eu vejo o Martim, ele é musicão mesmo, full time, tá o tempo todo tocando, ouvindo alguma coisa. Eu não sou, nem consigo. Eu preciso ler livro, ir pro interior, preciso não fazer nada.

MP: Você citou Tim algumas vezes, e eu sempre penso que é interessante como sua perspectiva desta nova cena brasileira é privilegiada, já que pode observar literalmente em casa. Como você entende esta nova geração?

Mauricio: Uma coisa é que esses caras têm muito a ver com a existência da Internet, de vários jeitos. Um é eles terem muito repertório. Eu vejo pelo Martim. Quando a Internet chegou, eu já tinha meu repertório na cabeça, mas eu baixei coisas no Napster – coisas antigas, exóticas e tal. Mas a geração deles baixou discografias inteiras e ouviu tudo. Uma coisa que me chama atenção é o conhecimento quantitativo que eles têm de música. E o que me espanta é que eles conseguem conhecer muita música com uma certa profundidade. Eu vi isso no Gustavo Ruiz (produtor de Outono no Sudeste) também, o cara tem muita referência, sabe onde buscar cada coisa. É impressionante como eles lidam com a quantidade. Outra coisa é como eles são reverentes com algumas coisas antigas, quase fetichistas. Tem um lado legal, eu vejo amigos meus da minha geração, eu vejo o carinho e a atenção que esses jovens têm. Querem ver como eles tocam, que instrumentos que eles usam. Tem um pouquinho de fetiche mesmo. O fetiche tá no timbre, eles têm uma tara por produção e sonoridade, o que entra muito forte no significado da canção desses caras. Eu usufruí muito disso pelo conselho do Martim e pela mão do Gustavo. Eu já tinha fuçado antes, mas, porque eu sou de uma geração em que a letra e a música meio que se bastavam, eu dou importância pra isso, mas, se eu souber que tenho uma boa letra e uma boa música e souber que eu não tô fazendo bobagem fonograficamente, eu já tô contente. Eles não, eles têm um requinte mesmo.

MP: Fala-se muito sobre sua característica de “cronista”, pela maneira com que escreve e canta. Que preocupação você tem para que a estética e a produção das músicas acompanhem as letras?

Mauricio: Eu sou um cara pouco fetichista, um cara do pop, um cara urbano, um misturador e um diluidor. Eu não vou generalizar. A minha cabeça é: Eu não copio estilos, vou fazer do meu jeito, não vou pagar de turista. Em um certo sentido, na minha cabeça, há um vocabulário médio, uma produção média – não “média” no sentido de medíocre, mas do homem comum. Nos meus discos, tem muito disso. Eu comecei a fazer isso nos anos 90, eu saquei que ia demorar pra eles se pagarem. Então eu pensei em fazer discos com uma sonoridade clássica e instrumentos clássicos – bateria, baixo, piano, guitarra e sopro. Até o Gustavo me gozou, “é a primeira vez que entra percussão no seu disco”. Eu não ponho instrumentos de época na música. Tem momentos em que o moog está na moda, ou uma guitarra X. Eu sou clássico, porque eu faço um tipo de canção que pode ser ouvida hoje, daqui cem anos, ou como poderia ter sido ouvida cem anos atrás. Pra isso, eu preciso de um instrumental e uma sonoridade mais clássica. Mesmo no trabalho do Gustavo, ele precisou segurar as rédeas, porque eu preciso dessa coisa clássica. Em um certo sentido, como eu acho a letra com a melodia muito importante, e elas têm que durar muitos anos sem ficar datadas, eu sou muito contido na produção, ela é muito clássica e muito seca. O Gustavo conseguiu expandir isso. Um pouco da minha austeridade tem a ver que eu acho essa coisa essencial da letra com música tão importante, isso tem que estar imaculado. Nessa cena nova, que eles têm muita exuberância de timbres, de produção, de ideias musicais, às vezes eu preciso respirar e decupar algumas canções para eu chegar de novo na audição da música com a letra, sabe?

MP: É interessante ouvir isso, porque, para mim, Gustavo foi uma escolha muito certeira, quase “natural”, para essas músicas.

Mauricio: Eu vou fazer 60 anos no ano que vem, então tem algumas ansiedades que eu não tenho. Já entendi que eu fico dez anos sem fazer um disco autoral. Não é porque o mercado não quer, mas porque eu não tenho o que dizer. E se eu não tenho o que dizer… eu não digo. Ou eu gravo meus discos de cover, ou boto meu discos na estrada, ou fico mudo, me encaverno. Com o Gustavo, o que aconteceu foi que a gente já se conhecia. Antes da gente entrar no disco – ele ir ao ensaio, eu mostrar as músicas -, a gente se encontrou várias vezes, tomamos café, conversamos sobre cinema e sobre música também. Foi um processo muito tranquilo. E ele é um cara muito atento, conhece muita coisa, e é muito interessado. Quando eu mostrei as demos pra ele, ele já tava sacando minha onda. Não a minha onda estética, mas a minha onda psíquica. Eu acho que um produtor tem que ser super psicanalista. Eu produzi poucos discos de artistas novatos, não tenho muito saco pra estúdio não. Eu até parei porque eu não sou muito exuberante, e as pessoas querem fazer discos mais coloridos, com mais coisas na produção, e eu ia muito pro essencial. Mas eu sacava que basicamente o que eu fazia com esses jovens artistas nos anos 1990 era contar pra eles que a arte deles era forte e fazer eles perderem o medo do microfone, sabe? Fazer eles entenderem quem eles eram, o que eles às vezes não gostavam de ver. Eu faço psicanálise e sei que muitas vezes a gente não gosta de ver o que a gente é. Mas às vezes a gente é aquela coisa, ela pode ser chata de ver, mas às vezes é a força que a gente tem. Acho que o Gustavo sacou a banda e tirou coisas que eu não sabia que tinha lá. Se fosse comigo, era rock’n’roll: Acabou a sessão e vamo embora.

MP: E sobre Trovoa, como você observa a popularidade que essa canção tem?

Mauricio: Cara, eu não tenho uma explicação pra isso. Eu devo ter escrito em 2004, gravei em 2007, Metá Metá gravou em 2011, aí que ela começou a aparecer mais. A Gadú multiplicou um pouco. Que nem eu te falei, o disco que tá Trovoa é o que eu achei que ia me ferrar, achei que não ia ter interesse no meu trabalho. Então, eu me permiti nesse disco a fazer algo simples, acho que eu soltei meu texto, é mais dialeto, é bem como eu falo mesmo, é meu disco mais paulistano. E Trovoa… eu botei uma batida e fui falando em cima. Montei ela como um rap. Eu respeito demais o rap, acho uma música paulistana importante demais. Eu fui fazendo a letra. Pra mim é um espanto, é uma música de cinco minutos sem repetição. Depois que estava o rap, eu botei um pouco de harmonia pra eu poder cantar, mais como um branco cantaria, porque eu também pensei “pô, eu não vou pagar uma de preto, de suingueiro” – eu sou branco, minha voz é de italiano, foda-se, eu vou ser branco. Então eu meti harmonia suficiente pra eu poder cantar e melodizar ela, né? Eu tô aqui pensando alto, que que pode ter batido no Trovoa? Eu acho que ela é uma canção que fala da relação afetiva, da autoestima, do desejo, ela anda pela cidade, e tudo isso dizendo assim: Tem hora que eu sou legal, tem hora que eu sou um bosta, tem hora que eu tenho certeza da coisa, tem hora que eu não faço a menor ideia, tem hora que acerto, tem hora que eu erro – e tudo bem. Se tiver que acontecer o amor, o afeto, a relação, vai ser no meio dessa bagunça, dessa imperfeição. O que pode ter no Trovoa que talvez tenha atraído as pessoas é que ela conta que a gente se dá a permissão de ser imperfeito e merecer tudo o que a gente quer, sabe? De estar titubeante e ir atrás, de estar com medo e ir atrás. De brigar, trombar, fazer merda e continuar bonito. Ela é uma música muito real, que usa palavras muito reais. O jeito que eu tô falando com você é o jeito que escrevi ela. Ela é muito, muito, muito da vida real, é quase uma daquelas novelas da Globo que são bem coloquiais. Não sei, que você acha?

MP: Minha leitura é parecida, vejo esse grau de sinceridade que ela apresenta, e essa coloquialidade de uma crônica mesmo. A gente logo se identifica com ela.

Mauricio: Pra mim é só uma canção de amor, eu queria ver ela na boca de um Odair José. É uma canção de amor, é mais do que uma crônica. Do lado dela tem uma outra música do Pra Marte que as pessoas gostam muito, Truques com Faca, ela é quase um folk. As pessoas me vêem muito como cronista, o cara que fala muito as letras, mas, ao mesmo tempo, eu tenho muita coisa na tradição da canção, eu não me prendo muito a uma coisa. É que as pessoas pegam a parte mais visível da gente. Acho que Trovoa é muito de verdade – não um troço grandioso, mas é de verdade porque não é grandioso, porque é pequenininho, porque a vida da gente… você corta o dedo, vai à padaria, e a música tem isso, né? O quarto do cara tá bagunçado, ele passa frio, a mulher recebe o chiclete de troco… são as coisas mais vagabundas, né? Só pode ser isso, essa simplicidade muito forte. 

E ela talvez tenha aparecido em um momento em que São Paulo teve a auto estima melhorada, quando uma série de coisas colocou SP no mapa nos 90 pros 2000: Graffiti, skate, rap, Baixo Augusta, os clubbers, a música eletrônica, a volta do Grande Prêmio de Fórmula 1, a Fashion Week, a parada gay… sei lá, um monte de coisa. A Internet tornou mais fácil de entender que existe amor em SP, que existe afeto. A feiura deixou de ser feia, se tornou apenas estética, sabe? Essa velocidade de influências, de culturas, ficou óbvia pra todo mundo. Apesar da gente ser áspero, tóxico e químico, a gente ficou mais doce também. Ficou mais fácil para o Brasil entender SP. Num certo sentido, Trovoa chegou em um momento quando ficou mais fácil entender o quanto afeto tem dentro dela, quanta poesia tem dentro dela. Quando eu tô falando que “recebe chiclete”, isso não é crônica, isso é poesia. Em um certo sentido, isso é muito delicado. Eu reciclo lixo pra fazer delicadeza. Se eu fizesse essa canção em 1995, certamente minha carreira já teria acabado. Meus discos dos anos 90 são bem mais brasileiros que o Pra Marte, que é tão paulista, né? Eles eram discos mais próximos ainda do que eu ouvi na infância e na adolescência, que tem a ver com Beatles, Jovem Guarda e MPB, né? Eram discos mais próximos da brasilidade, apesar de terem muita coisa de hoje em dia.

Não tem muita explicação, Trovoa ainda me espanta. Antigamente, quando você ia falar muito simples, que nem Trovoa fala, você fazia isso na métrica, e isso estava dentro da canção. No meu disco Canções que Um Dia Você Já Assobiou, que eu cantei Antônio Marques, cantei Guilherme Arantes, Rosana, Ronnie Von… pra mim, são clássicos. É como se eu estivesse cantando Mozart e Beethoven. Na estrutura, na maneira de fazer canções de amor, de afeto, de olhar a sociedade. Tem jeitos muito simples, com muito pouca palavra. Eu queria fazer músicas mais curtas – nesse disco já tem umas -, eu queria fazer igual a Jovem Guarda. A gente perdeu essa coisa simples que tinha dentro da canção, ela se complicou um pouco.

Eu acho que tem coisas importantes pra se falar do meu processo. Uma é, que nem o Indiana Jones estava indo buscar a arca dele, eu tô indo buscar São Paulo há muitos anos, pelo menos 30, tô tentando entender o que é SP. Eu criei algumas certezas e alguns sustos no caminho. Acho que tem dois causos que me explicaram São Paulo. Um foi com o Mergulhar em 99, uma amiga minha jogou o disco na mão do pessoal do Festival de Jazz de Montreal. Eles disseram que gostaram muito das músicas, mas que não era suficientemente brasileiro. Eu fiquei mal, isso me ajudou a estar semi-deprimido na virada do século, porque pra mim a brasilidade é uma coisa muito importante, ser visto como brasileiro era muito importante. Aí eu comecei a sacar que São Paulo era um bagulho fora da curva. Eu já sabia por alguns motivos, porque eu tinha outra tese antiga na minha cabeça sobre a linha evolutiva da música paulista – pra mim é Demônios da Garoa, Os Incríveis e Ira!, três bandas que são a mesma coisa em épocas diferentes: Poesia sangrenta, a maneira sangrenta de tocar os instrumentos e tudo gritado, sem nuances. Muito paulistano emotivo, um paulistano que está acabando, uma pequena classe média de italiano com português. Aí, quando São Paulo fez 450 anos, comprei um monte de livros sobre SP para entender, e eu saquei que a cidade virou SP como a gente conhece só em 1900. Só que já tinha Brasil há muito tempo. Antes de 1500 tinha o Brasil dos índios, que eu nem sei como eles chamavam, aí o Brasil foi Bahia, foi Pernambuco, foi Minas Gerais, Rio de Janeiro, Maranhão, Pará. São Paulo veio muito depois. Às vezes eu ia dar entrevistas pra rádios de fora de São Paulo e eu pensava “porra, cara, eles dão uma importância pra São Paulo, mas a gente é uma cultura jovem no Brasil, a gente não sabe porra nenhuma de brasilidade”.

Aí o que matou de vez foi quando eu fui tocar em 2000 e alguma coisa no Festival de Garanhuns (PE), aí, na volta pra São Paulo, o avião atrasou e ficamos seis horas no Recife, que eu não conhecia. Fomos ao Recife velho e eu tomei um puta susto. Eu vi os fantasmas todos ali, pensei “cara, olha esse lugar. Isso aqui em 1650 tinha música, literatura, discussão intelectual, business pesado, alma, estética…”. Caralho, meu. Em SP, isso foi rolar em 1900 – e de outro jeito. Nós não tivemos barroco. As fichas me caíram todas. Ficou mais fácil eu entender porque eu não era tão brasileiro, porque a minha música era quebrada, não era brejeira, porque que eu não tenho malemolência, porque que, quando eu penso em música ancestral, eu não tô pensando numa toada, mas em música italiana – natural, eu sou paulista urbano, de nonos e nonas, não dá pra falar em baião ou maracatu. Isso me explicou muito SP.

Essas coisas me importam muito no processo criativo. Entender São Paulo me tirou um peso das costas. Hoje eu sei quando estou escrevendo se estou escrevendo em português ou em paulistano. Eu acho que o próximo pedaço do mundo que eu preciso invadir é o interior de São Paulo, que eu acho a região mais negligenciada e injustiçada do Brasil. Em última análise, quando me chamam de cronista, eu diria: Sou um antropólogo amador, um geógrafo amador, e quase um compositor amador também. Sou um amador.

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