Entrevista: Márcio Lugó

márcio lugó

Márcio Lugó apareceu pela primeira vez no Música Pavê com a estreia da música Sou Assim, mas o cara já era um querido há um bom tempo por aqui, consequência de seu trabalho autoral que rendeu recentemente um segundo álbum (aliás, muito recomendável), Liberdade Aparente.

Para falar sobre o disco e sobre fazer música, nos encontramos para um café numa noite de outono em nossa São Paulo, uma daquelas conversas em que a gente não vê o tempo passar, e ele mostrou ser aquilo que sua produção já sugeria: Um cara com muito pé no chão, cabeça no lugar certo e um coração aberto para música.

Com shows marcados em São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Rio de Janeiro nos próximos meses, veja o que ele nos contou.

Música Pavê: Márcio, por que fazer música?

Márcio Lugó: Difícil essa pergunta, hein? Na verdade, eu não acho que tem nem resposta pra essa pergunta. A música é a razão, é o que eu sei que vou fazer a vida inteira, até eu morrer. Lancei um disco em 2010, lancei outro agora e já tenho música pra um próximo. É algo que eu não consigo viver sem. E não é nem aquele negócio de “passar as minhas ideias”, a música que eu faço é como se fosse um espelho do que rola à minha volta. Eu não tô “pregando” alguma coisa, eu tô filtrando o que eu vejo e coloco lá. No meu som, tem muita coisa de protesto, com um caráter mais social, também tem as coisas mais amorosas. É um reflexo das coisas que eu vivo, que me marcam, que me chamam a atenção. A música é esse fluxo que tem que rolar. Acho que esse é o porquê, mas nunca parei pra pensar nisso. É natural.

MP: O que você acha que significa ter uma carreira consolidada no Brasil hoje?

Márcio: Eu acho que é as pessoas começarem a te notar, né? Porque é difícil você conseguir atenção de alguns meios de comunicação, do público. Acho que é começar a ter esse respaldo, sem falar em termos financeiros. É o cara fazer um trabalho que tem gente interessada em ouvir, ele lança uma música e tem gente que vai parar pra ouvir. E o resto é consequência, porque aí você vai tocar em lugares mais legais, com cachês mais legais, dando pra pagar todo mundo. Mas é isso, é as pessoas pararem pra ouvir o que você tem pra falar, independente de qualquer coisa.

MP: Sobre o disco ter um lado mais de protesto e outro mais romântico, o quanto disso foi planejado, ou o quanto foi espontâneo o álbum ter ficado assim?

Márcio: Não foi muito escolhido não. Acho que tem dois tipos de compositores, basicamente. Tem aquele que compõe 40, 50 músicas em um ano, aí vai fazer um CD e escolhe dez. E tem aquele cara que é mais pontual, que faz dez, doze música e é o que está no disco – esse é o meu caso. A partir do momento em que eu estava com oito músicas, eu falei: “Tá na hora de começar a trabalhar o meu próximo disco”. O que sai de mim é o que vai pro CD, e tem muito do que eu tô vivendo. Esse disco agora é mais meio a meio, são cinco músicas com esse caráter um pouco mais social e cinco que falam de algo mais amoroso, mas foi porque eu vivi momentos mais próximos desse lado amoroso. No primeiro disco, são oito mais social e duas mais de flerte, de conquista, porque é o que eu estava vivendo.

MP: E na parte estética, o quanto você vê de ser um catalisador do som que estão fazendo ao seu redor? As escolhas pra sonoridade do disco são feitas mais naturalmente ou você opta por alternativas mais contemporâneas?

Márcio: Isso acaba rolando num âmbito pequeno porque eu já fiz as escolhas das pessoas que vão trabalhar comigo. Por exemplo, o Rafa Moraes, que produziu o disco comigo, antes a gente já tinha feito uma música, vamo ver como é que soa, aí decidiu mandar ver. Trabalhando com as pessoas certas, que tem a ver com você, esse âmbito é menor. Você não vai chegar num ponto em que “nossa, nada a ver comigo essa linguagem”. Então não sai da minha estética, porque as escolhas foram feitas antes.

MP: Mas essas escolhas são feitas baseadas em quê? Em gosto mesmo?

Márcio: Eu acho que sim, acho que é uma questão de gosto. A música que eu faço, a “música brasileira contemporânea”, acredito eu que quem tá fazendo esse tipo de música não está pensando muito em um aspecto comercial, senão estaria fazendo outra coisa. O que a pessoa tá produzindo, tá colocando pra fora, realmente é o que ela é. Se viram pra mim – vou exagerar, tá? – e falem “a gente quer que você seja o novo cantor sertanejo que vai bombar, vai tirar um milhão por mês, não sei o quê”… Eu não consigo fazer isso. Não é por isso que eu faço música, eu nem vou conseguir. Eu posso até falar “vamos fazer”, mas não vai rolar, esse não é meu perfil. A minha música não sai desse jeito, ela sai do jeito que tá no disco. Não tem muito molde não, é daquele jeito porque é.

MP: Você ouve bastante música?

Márcio: Ouço menos do que eu gostaria, não dá tempo. O artista independente hoje tem muita coisa pra fazer. Não sei se você tem ideia disso, mas, em semana de show, a coisa que eu menos faço é tocar. É claro, rolam um ou dois ensaios naquela semana. Eu tento colocar um cronograma, quero estar afiado, tocar todos os dias o set inteiro como se fosse o show. Não consigo, não dá tempo! Se eu não consigo nem fazer isso, muito menos ouvir música. Mas, como eu ando com muitos músicos, acabo ouvindo muita coisa sim, ouvindo os discos deles, conhecendo coisa nova – o que é sempre legal -, de outros estilos. Tudo é influência.

MP: Como ouvinte, qual é a sua postura? Você busca coisas mais específicas pra ouvir, uma audição mais analítica, ou vai escutando música sem se preocupar com o estilo ou os nomes que ela carrega?

Márcio: Olha, pra mim é bem natural. Acho que o pré-requisito é curtir, é você gostar do negócio ou não. Acho que talvez eu pare pra pensar um pouquinho mais dessa forma analítica na música quando eu tô produzindo alguma coisa. Porque aí eu começo a reparar “que legal esse arranjo que o cara fez nessa música”, em roupagens diferentes. Mas, como ouvinte, como compositor, eu só ouço mesmo. Pra Sou Assim, a inspiração foi John Mayer. Eu estava ouvindo pra caramba as coisas dele naquela época e aquela sonoridade entra na gente. Na hora que eu peguei o violão e veio uma inspiração, saiu aquilo lá. É meio por osmose, meio sem pensar. O pensamento vem na hora de produzir.

MP: Quais foram os discos que mais te marcaram na vida?

Márcio: Tem alguns discos pontuais. O primeiro foi o Black Sabbath, que foi o disco que me trouxe pra música, quando eu tinha meus catorze, quinze anos. Eu não me interessava por música, lá em casa era sempre esporte, eu joguei futebol de terça à sexta dos seis aos 16 anos. A música Iron Man (que não é desse disco) me interessou, eu comprei esse disco e ele me trouxe pra música. Outra banda, é difícil falar um só disco, foi Dreamtheater. O segundo disco da banda foi o que me fez querer fazer música profissionalmente. E o terceiro, que me fez vir pra música brasileira e falar “isso que eu quero fazer”, foi o Olho de Peixe do Lenine, que eu fui ouvir pouco antes de fazer o Desacelera. Foi a melhor compra que eu fiz na minha vida. Ele é um cara que veio do rock também, misturando esses sons brasileiros, foi um baque muito grande. Daí também o da Luisa Maita, que é a lembrança mais longínqua que eu tenho do Liberdade Aparente, foi no show dela que eu conheci o Rafa, que veio produzir o álbum comigo. Se não fosse a Luisa, o caminho teria sido todo diferente. Eu só estou aqui, com esse trabalho do jeito que é hoje, por causa dela.

##Próximo show: São Paulo

Márcio Lugó e Verso que Compomos na Estrada

Teatro Viga Espaço Cênico
Rua Belmiro Braga, 216, Vila Madalena
Participação especial: Marco Vilane
Show 21h
Entrada: R$ 30
Ingressos antecipados: ingressoseisjunho@gmail.com

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