Entrevista: Garbage

foto por joseph cultice

“Estamos trabalhando em um disco novo” – começar uma conversa com Duke Erikson e já ser brindado com uma informação dessas é o sonho de qualquer repórter, ainda mais de alguém que passou a adolescência ouvindo Garbage (caso de boa parte da equipe Música Pavê). “Estamos em Palm Springs, na Califórnia, na casa de um amigo. Improvisamos um estúdio para compor aqui no calor”, ele conta para iniciar uma conversa descontraída que exemplifica a leveza que, de uma forma ou outra, sempre está presente na música do grupo, mesmo quando ela se propõe a ser tensa e cheia de energia.

Não é nenhum exagero ou “forçação de barra” afirmar que passamos a adolescência ouvindo Garbage, ainda mais quando nos deparamos com o fato de que Version 2.0, seu segundo álbum, completa 20 anos de lançamento em 2018. Nas comemorações, ganhamos uma remasterização do disco, que chega em uma versão deluxe com os lados-B da época e uma faixa inédita, Lick the Pavement.

Foi esse o principal assunto do papo com o guitarrista, assim como sobre seu trabalho ao lado de Shirley Manson, Butch Vig e Steve Marker. O relançamento de Version 2.0 acontecerá em 22 de junho via Stunvolume/[PIAS].

Música Pavê: Há vinte anos, quando Version 2.0 saiu, você fazia alguma ideia de que estaria comemorando seu lançamento duas décadas depois? 
Duke Erikson, Garbage: (risos) Naquela época, a gente estava apenas vivendo um dia após o outro, não tínhamos tempo de pensar no que o futuro poderia trazer. Agora, nos sentimos sortudos e abençoados por ainda poder fazer aquilo que amamos. (risos) É uma loucura conversar sobre um aniversário de vinte anos, mas… cá estamos!

MP: Vivemos hoje uma época de revivals, seja no cinema, na TV e mesmo na música. Você acha que esse espírito contribuiu na hora de decidir relançar o disco?
Duke: Bem… Acho que sempre vale a pena revisitar uma boa obra, seja relembrar o trabalho de um pintor ou relançar um filme. Ouvir o disco de novo foi uma experiência muito emocional para todos nós, nos deu um senso de orgulho perceber que ele ainda é relevante musicalmente, até mesmo liricamente. Acho que a ideia de “revivê-lo” foi em primeiro lugar algo para nós mesmos, mas as pessoas parecem ter se interessado. Por mim, já está bom (risos).

MP: Sobre a remasterização em si, vocês tinham alguma direção específica para como ela deveria ficar?
Duke: Bem, há uma nova tecnologia nova hoje, assim como um novo gosto para o vinil. Pensar em vinil hoje é algo global, não mais em uma perspectiva de uma “raridade”. Acho que vinte anos depois, quando a tecnologia evoluiu do CD para o MP3, é uma boa ideia voltar e tentar recapturar um pouco dos sons originais, só para dar mais uma forcinha para o disco (risos).

MP: Você mencionou que o disco ainda é relevante liricamente, e eu concordo muito. Quando ouço músicas como Dumb, The Trick Is to Keep Breathing e principalmente I think I’m Paranoid, penso que elas poderiam ter sido escritas hoje por alguém da nova geração de bandas.
Duke: Pois é, eu não sei se elas seriam tão relevantes há dez anos, mas nesta era… (risos) A gente parece viver uma época de paranoia na qual precisamos lembrar que o truque é apenas respirar (risos).

MP: E também cercados de muita gente dumb.
Duke: (risos) Bem, acho que muita gente no meu país que fez uma certa decisão, que votou em um certo cara nas últimas eleições, se sente dumb no momento – ainda que muita gente ainda não tenha percebido o quão dumb é tudo isso. Enfim, acho que existe sim uma relevância das letras ainda hoje. Naquela época, Shirley escrevia a maior parte das letras. Nós outros sugeríamos alguns versos ou nomes de música, mas era ela quem comandava a escrita. No primeiro disco, no entanto, elas foram escritas por nós quatro juntos. E ela provou que tinha esse ponto forte e tomou conta dessa tarefa. E eu fico feliz que ela tenha feito isso.

MP: Quando ouço Version 2.0 e Garbage no geral, sempre fico surpreso com o quanto o disco consegue comunicar tão bem tanto com o post-punk dos anos 1980, com o rock alternativo dos 90 e até mesmo com a pegada emo da década seguinte. Você percebe esse aspecto atemporal no seu som?
Duke: (risos) Acho que sim. Fico feliz de ouvir isso. Penso que tem a ver com nossa forma de compor, gravar e produzir. Nos inspiramos muito pelos clássicos. Tivemos tempo para estudar o que funciona, o que fica e o que é apenas para o momento. E tudo o que nós gostamos de ouvir tem essa qualidade atemporal. É a única maneira que eu consigo explicar. Acho que, se você é honesto com o que faz, e presta atenção no que está gravando e no que está dizendo, você é levado ao que terá uma força que dura muito tempo. Isso nem sempre aconteceu com nossa música, mas, no geral, acho que conseguimos. Tem a ver também com como nós quatro trabalhamos juntos. Cada música precisa passar por um verdadeiro júri de quatro pessoas (risos).

MP: Isso tem a ver com minha próxima pergunta. Quando vejo a experiência que cada um tem para além do grupo, sou lembrado que Garbage não é uma banda qualquer. Como você acha que cada um influencia o trabalho final?
Duke: É interessante. Muita gente pode pensar que Butch tem a maior parte do trabalho de produção, mas você ficaria surpreso se soubesse quantas ideias vem da própria Shirley. Não sei, acho que meu ponto forte é melodia e estrutura musical, mas é algo que todos nós fazemos. No fim das contas, cada um tem suas características mais fortes, mas tudo se mistura. Shirley virou a melhor letrista de todos nós, mas todo mundo acaba contribuindo um pouco. Billy Bush, nosso engenheiro de som, sempre adiciona muito, ao ponto de ser considerado o quinto membro por nós. Ele encontra os sons exatamente como os descrevemos, sabe tirar da guitarra aquilo que precisamos, ele entende nossa língua. Acho que, com o tempo, todo esse trabalho flui mais facilmente dentro da banda.

MP: Sobre esse novo disco, tem algo que já possamos saber sobre ele?
Duke: É cedo demais para dizer alguma coisa. No momento, somos nós quatro na casa de um amigo, com nosso cantinho montado para tocar, e estamos só improvisando para ver o que acontece. Já criamos algumas coisas, e daqui algumas semanas voltamos para compor mais. Tem sido bastante produtivo, porém ainda é cedo demais para entender a direção que o som vai tomar no álbum. Mas tem sido divertido.

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