Entrevista: Far From Alaska

“Estou acordando agora pós-Circadélica”, confessou Cris Botarelli ao Música Pavê por telefone na segunda, 24, com uma voz de sono bastante satisfeita do show que Far From Alaska fez no festival no dia anterior. O clima de realização vem também da ansiedade pelo lançamento de Unlikely, disco que chega ao grande público finalmente em 4 de agosto.

Ele foi gravado nos Estados Unidos sob a produção de Sylvia Massy, que já foi engenheira de som em trabalhos de gente como Foo Fighters, Björk, Prince e Red Hot Chili Peppers. O resultado começou a ser mostrado recentemente com o single (e clipe) Cobra.

No mesmo fim de semana que receberemos seu segundo álbum, Far From Alaska apresenta-se em Brasília no festival coMA, ao lado de nomes como Lenine, Emicida, Scalene, Silva e Baleia, entre vários outros (veja a programação completa no site oficial do evento). Entre outros assuntos, Cris comentou o diálogo com os outros músicos em eventos assim e a diversidade de seu público.

Música PavêQuando comparo o clipe de Cobra com suas produções anteriores, percebo uma ambientação bastante diferente – se antes eram grandes produções, a nova parece trazer uma “urgência” muito maior -, tem outra pegada. Isso diz alguma coisa sobre o novo disco?

Cris Botarelli: Exatamente isso. A música foi escolhida como single por isso, porque a gente acha ela muito “pé na porta”, tipo “estamos aqui, lembra da gente?”. A gente quis que fosse diferente dos outros, que fosse no chroma key, meio tosco, porque o disco está com uma vibe um pouco mais despretensiosa que o primeiro. Não que o anterior seja pretensioso, mas é um pouco mais sério, havia muita vontade de acertar nos arranjos e nos riffs, e acho que a gente agora está mais relaxado como banda e como pessoa também, todo mundo mais seguro do que cada um faz na banda e a gente pôde brincar um pouco mais com isso.

MP: Isso tem a ver com a maturidade que vocês ganharam nesses anos, com gravações, estrada, shows, não é?

Cris: É, e tem uma coisa que foi determinante nesse processo todo. A gente tem uma cara muito séria, e nossas fotos não ajudam, de banda do mal, banda… stoner… rock… do demônio (risos), e a gente não é assim, a gente detesta passar essa imagem. E isso começou a incomodar ao longo do tempo, as referências que as pessoas traziam, tipo em entrevistas, eram para um lado de um rockão clássico que não é o nosso. E acho que a gente conseguiu deixar esse novo disco com nossa cara.

MP: E como foi esse processo de afirmar e comunicar a identidade da banda?

Cris: Pela falta de experiência, tudo era muito novo para a gente. Agora que a gente está conseguindo ser quem a gente é mesmo. O lance da identidade da banda era uma coisa que estava ali, mas a gente só conseguiu enxergar mesmo, quando saiu o primeiro disco. É um processo lento, mas a gente está muito orgulhoso de saber agora como mostrar a banda como a gente gostaria.

MP: Como vocês percebem o público da banda hoje?

Cris: A gente dialoga com vários públicos. Tem uma galera roqueira, o que é óbvio, mas aí tem aquela que sempre surpreende que é a galera do pop, que gosta porque tem as meninas dançando, tem uma galera gay, porque a gente é gay, e tem uma galera mais velha, aquele cara de cabelo grande, metaleiro desde os anos 80, que chega pra gente e fala “nunca mais tinha ouvido nada assim desde os anos 90” (risos), tem todo mundo.

MP: Em outras palavras, é a banda que vai unir todas as tribos.

Cris: Isso, é o Norvana (risos).

MP: Algo que eu acho muito interessante é que eu percebo que Far From Alaska é um dos poucos casos de um crescimento de popularidade muito orgânico, baseado principalmente pela qualidade da música (situação rara no Brasil) e ampliado pelo boca a boca. Como vocês enxergam isso?

Cris: É isso. A banda tem vários “embaixadores” (risos), as pessoas vêm falar “nossa, mostrei pra todos os meus amigos, estão todos aqui no show agora, todos gostam da banda”. E nos shows a gente percebe quando tem gente nova, depois na semana manda mensagem falando “não conhecia, achei foda”.

MP: Veio daí também a ideia de trabalhar o disco por financiamento coletivo?

Cris: Cara, a gente tem uma coisa muito doida na nossa história que é ter conseguido muita coisa por causa das pessoas na Internet (risos), a galera que acha a banda massa e quer que dê certo. É como se todo mundo fosse da banda (risos), é muito massa isso, um sentimento muito verdadeiro. E a gente estava nessa loucura de querer gravar o disco nos Estados Unidos sem um real dentro do bolso. Aí a gente fez o financiamento em forma de pré-venda. A gente queria que a pessoa sentisse que estava junto, participando ali daquele momento. Tinha até recompensas que eram só enquanto a gente estava lá para as pessoas se sentirem parte do processo.

MP: E sobre gravar o disco nos Estados Unidos, como foi a experiência?

Cris: Acho que foi nossa melhor experiência de banda. Gravar com a Sylvia… ela é muito doida! Sabe gênio doido? É ela. Só que ela é de um jeito que não deixa as pessoas de fora, é super good vibes. A gente estava um pouco temeroso, porque nunca tinha sido produzido por ninguém, mas foi muito legal. Ela somou bastante em várias coisas, e fez vários experimentos de gravação que a gente achou muito massa. Por exemplo, ela gravou o synth passando por uma salsicha. Em outra, passando por um picles e chegando no amplificador.

MP: Quando você falou “salsicha”, eu ia comentar que não conheço esse termo técnico de estúdio, mas você disse também “picles”, então eu acho que é exatamente o que eu estou pensando.

Cris: (risos) Cara, o termo técnico para “salsicha” no estúdio é “salsicha”. E ela queria uma salsicha daquelas recheadas com queijo, disse que não adiantaria ser outra. Sai um cabo do synth, ela espeta dois fiozinhos e sai para o amplificador. E isso destorce o som, dá um drive diferente, porque ela conduz meio toscamente. E ela curte essas experiências, disse que às vezes nem usa essas gravações, mas que é divertido fazer. E o clima foi sempre massa.

MP: Far From Alaska é uma banda sempre presente em festivais, como o coMA. O diálogo que vocês possuem com as bandas brasileiras de hoje, e a participação em eventos assim, influenciou as novas músicas?

Cris: Sim, não tem como, essa vivência, com muitas jams, acaba influenciando sim. Inclusive, eu gostaria que, quando rolasse aquela pergunta “quais são as influências da banda?”, eu responderia que é essa galera mesmo, porque a gente tá junto sempre que dá, a gente escuta essas músicas, vai aos shows, faz música junto… não tem como não ser influenciado.

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