Entrevista: Brunno Monteiro + Carlos Posada

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O Rio de Janeiro é uma cidade incrível e não precisamos nos esforçar muito para perceber o contraste maravilhoso que essa cidade proporciona. Basta ir à Lapa, região boêmia do Centro, para perceber que as diferenças estão sempre em comunhão. Essa diferença, todo esse status da cidade, já inspirou jovens a se tornarem grandes nomes da nossa música brasileira. Exemplos não faltam.

Essa história entre a música, migrantes e o Rio de Janeiro sempre foi algo único, inseparável, algo tão bom que merecia algo só com esse tema. Pensando nisso, surgiu a ideia de unificar cancionistas oriundos de diversos estados e radicados na Cidade Maravilhosa e uni-los aos nativos cariocas na formação de uma intensa cena musical repleta de criatividade e articulação. Nascia, então, o projeto do Festival BRio.

O Festival Brasil no Rio ocorrerá toda quarta-feira, a partir do dia 7 de maio, no Centro de Referência, e contará com nomes importantes da cena independente brasileira como Mahmundi, César Lacerda, Fernando Temporão, Emerson Leal, Michele Leal e Ventre. Nesta primeira semana, a inauguração contou com Brunno Monteiro e com Carlos Posada (Posada e o Clã).

Poucos dias antes do show, o Música Pavê conversou um pouco os dois e o resultado você pode ver abaixo.

Música Pavê: Há grandes nomes e estilos variados na música brasileira atualmente e isso independe da localidade desse artista. Parece que o eixo diante da globalização ruiu e todo cenário pode ser interligado e difundido igualmente. Como vocês avaliam as diversas cenas de música brasileira atualmente?

Brunno Monteiro: Eu acredito numa mistura muito grande entre as “cenas’’ musicais. Creio que o conceito de cena vai se dissolver com o tempo. Você vê, por exemplo, Emicida, que é um cara da “cena rap’’, (que sempre foi bem fechada), gravando com Tulipa Ruiz, NX Zero e Tom Zé, entre outros. Citando o próprio Tom Zé, ele acabou de lançar um EP totalmente integrado com uma galera nova, que ele nunca tinha trabalhado antes. É até possível dizer que é a ‘’cena paulista’’, pois eles são todos de lá, mas é difícil você incluir Emicida, O Terno e Trupe Chá de Boldo em uma mesma etiqueta, eles têm trabalhos bem distintos uns dos outros. No entanto, lá estão eles em um mesmo recorte. Isso pra mim mostra que a musica brasileira está caminhando para uma troca maior mesmo entre seus diversos estilos e artistas, interligando todos os cenários, gerações, cenas e cidades em uma coisa só.

Carlos Posada: Conheço algumas cenas, mas sei que não é nem metade da metade do que se faz no Brasil. Nesses dias atuais e no que já foi feito antes, bem antes. Penso, que as cenas sempre se comunicaram. Gostamos e avaliamos um MC, um forrozeiro, um produtor e uma intérprete com a mesma intensidade e crítica. Por isso, a mistura faz bem. Mesmo quando são grupos fazendo trabalhos opostos. A escrita, a música, a interpretação e todas as outras formas de arte e educação ganham muito com o “viver o outro”.

MP: O que vocês esperam dessa parceria no Festival BRio? E como a mistura de gêneros musicais distintos pode vir a te inspirar numa composição futura?

Posada: Brunno é irmão. Fizemos uma musica juntos chamada Nublado, que vamos tocar ao vivo pela primeira vez nesse show!

Brunno: Apesar de a proposta do festival ser a de dois shows distintos, vamos fazer algo juntos na apresentação, entre o show dele e o meu. Isso porque acabamos de compor uma canção juntos. Sou fã do trabalho do Posada há um tempo e pedi pra ele me mandar alguma ideia. Ele me mandou um princípio de melodia e letra, e eu completei. O interessante dessa música, é que valorizamos bastante a canção durante o processo de composição. Era de se esperar uma musica mais pesada vinda de nós dois, até porque temos bastante influências do rock anos 90 em comum. Mas também gostamos muito de outros momentos da música brasileira. Eu imprimi um pouco da minha influência de samba carioca e ele do regional pernambucano, levando a música para uma outra esfera de composição de nós dois. Foi uma ótima experiência e já estamos tramando outras parcerias. Ah, e eu adorei terem me chamado pra dividir uma noite com o Posada e o Clã, posso dizer que vai ser uma noite de bom Rock’n roll e experimentações.

MP: O que representa para a música independente a movimentação da própria classe de músicos para a divulgação dos próprios artistas?

Brunno Monteiro: Essa movimentação é muito importante, pois, com o fim da força das gravadoras, acabou-se toda uma escala de trabalho que existia para divulgar, marcar shows, entre tantas outras coisas. Muito desse trabalho agora fica por conta do próprio artista. Então é natural que venham a acontecer festivais e shows planejados e executados por nós mesmos. No ano passado fiz uma temporada no Estúdio Floresta e chamava um artista por noite para dividir o palco. Uma desses noites foi com o César Lacerda, e além de ganhar um amigo, também ganhei mais um parceiro. É muito legal essa aproximação, pois gera uma força comum de divulgação, um leva o outro.

Posada: Acho que isso representa para a “classe” uma volta à realidade, de ver como as coisas são. Não da pra todo mundo ser superstar. Então, vamos trabalhar. Entre erros e acertos vamos aprender cada vez mais a vender nosso peixe! Falando nisso, compartilhem essa matéria do Musica Pavê!

MP: E o que vocês aguardam do BRio? 

Brunno Monteiro: Espero e sinto que ele terá continuidade. A idéia por si só é ótima e solidifica um processo da cidade. Mostra que a música brasileira não tem fronteiras mesmo. E no caso do Rio é bem interessante, pois está voltando a acontecer aquele “êxodo” que rolava nos anos 70, da galera de outros estados vir para cá tentar a sorte, mesmo sabendo das dificuldades que o mercado carioca atual tem. Isso aconteceu em São Paulo e foi extremamente sadio para a cena de lá. É ótimo que aconteça também por aqui, traz a possibilidade de uma troca mais diversificada com esses outros artistas. Além disso, o festival, por acontecer na Tijuca, permite algo que é um problema central para todos nós atualmente: circulação. Esse é um aspecto extremamente positivo do BRio, abrir um palco fora do circuito tradicional da cidade.

Posada: Vamos com o Brunno Monteiro abrir os trabalhos ,que tem ainda, nos outros dias do Festival: César Lacerda, Ventre, Emerson Leal, Mahmundi, Michele Leal e o Fernando Temporão. A ideia do festival é mostrar algumas produções, rumos e sabores distintos que fazem do Rio de Janeiro em um lugar único e exótico. Eu espero o melhor, sempre.

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