Da Boca Deles: Músicos Comentam os Destaques de 2017

Como sempre acontece por aqui, o Música Pavê, depois de uma semana comentando o ano, chamou alguns músicos que movimentam a produção musical brasileira para perguntar qual foi o maior destaque de 2017 na música.

Entre velhos conhecidos e novos nomes, gente do Brasil e de fora, algumas bandas que estão em nosso especial e outros que acabaram ficando de fora, eis o que os artistas comentaram, do jeitinho deles.

Tatá Aeroplano

Nesse ano, tive a felicidade de ver três shows do Giovani Cidreira, duas apresentações acústicas, uma delas com as participações lindas da Josyara, que ano que vem lança disco novo, Luê, que acabou de lançar um lindo disco, e do produtor e parceiro Dustan Gallas. Eu vi um show com banda no festival Fora da Casinha. Foi umas das coias mais legais desse ano tão lindo na música. Adoro o álbum Japanese Food, disco que escutei bastante e já tive a chance de acompanhar novas músicas compostas por ele, que em breve vem com material novo! E digo sempre: Viva a música, o Giovani e o disco Japanese Food!

Negro Leo

No âmbito de uma geração que cultua, uns diriam tardiamente, outros diriam no tempo exato em q se vive e cria, a personalidade do gênio indômito, Tantão e os Fita lançou esse ano Espectro, talvez, o disco mais importante da década. De uma forma ou de outra, todos da nossa geração se interessam por batidas eletrônicas e nossa zona cultural é o funk. O universo sônico do disco vai expandindo essas conexões de sentido que a geografia do Rio evoca e vai explorando o universo poético do mestre. Nesse ano, vi o show na ​Audio ​Rebel​ (RJ)​, porra, fiquei chapado: o ataque das ondas sonoras vibrando as células do fígado já afainado pela cerveja me transportaram através do portal. Uma performance tremenda, gigante, até mais potente que o disco — de certa forma essa é a dimensão aurática da performance ao vivo.

Nathanne Rodrigues (Chico de Barro)

Meu destaque do ano vai pra MiêtaConheci a banda no final de 2016, logo após ter lançado o primeiro single, Room, e tem sido incrível acompanhar de perto todo o crescimento e amadurecimento nos shows, e também no disco lançado recentemente. Deu um baita orgulho vê-los no line-up de festivais importantes como o Bananada, Dia da Música, SIM SP, Transborda e de principalmente vê-los realizar o sonho de abrir pro DIIV. Tivemos o prazer de dividir o palco algumas vezes nesse ano também, e foi foda. Tenho certeza que ano que vem será de conquistas ainda maiores!

Cinnamon Tapes

O destaque foi o coletivo Rimas & Melodias. Elas estão mudando a história da música brasileira por falarem de feminismo, especialmente o feminismo das mulheres negras, com muita propriedade e empatia. Elas estão contribuindo para a criação de uma representatividade da mulher que ainda não tinha sido trabalhada no Brasil. Elas são um encontro certeiro entre música e política, sendo fundamentais para o nosso momento atual.

Deb Babilônia (Deb and The Mentals)

Minha banda teve um ano bem agitado com muitas viagens (ainda bem!), e o disco que mais escutei na estrada foi Add Violence, do Nine Inch Nails, que na verdade é um EP com cinco músicas que marcou momentos inesquecíveis no meu 2017. A última música do EP, que se chama The Background World, tem 11 minutos com um loop no “final”, que repete 52 vezes – que te dá a sensação que algo de errado aconteceu. E é exatamente isso que torna a música incrível e tensa. Existem várias teorias sobre o porquê Trent (vocalista do Nine Inch Nails), repetiu o número de vezes do loop exatamente de acordo com a sua idade.

Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens)

Carne Doce. A Salma me liberta muito, eu sinto nela uma força feminina que foi aprisionada, esquecida, e ela tá soltando isso. O jeito que ela se porta no palco me transforma, faz eu me repensar. O fato dela soltar a voz pra cantar também me impressiona e tem me inspirado cada vez mais. Isso fez a banda se destacar pra mim este ano.

André Ribeiro (Alaska)

Pensei bastante nos lançamentos desse ano e no que eu acho que foi realmente importante pra música. Na minha opinião, em tempos onde todo mundo gosta tanto de falar em “salvar o rock” e bobagens desse tipo, é importante exaltar os artistas que realmente estão fazendo algo relevante. Rincon Sapiência lançou o melhor disco nacional, sem dúvidas. Temos muita sorte em viver na mesma época que esse artista, e eu acho que não estamos falando sobre ele o suficiente.

Cícero

Chico Buarque. Porque lançou disco.

Lio Soares (Tuyo)

Cara, tá tudo meio que no destaque na minha cara esse ano. Não sei se eu é que sempre pesquisei mal até 2016, mas tenho a impressão de que 2017 metralhou trabalhos ferozes na minha mente. Foda eleger um representante dessa chuva de meteoro, mas honestamente, quem tem me conduzido em 2017 e é possível que siga ornamentando a minha vida é a Luedji Luna. Ela flutua. Comunica comigo, me atinge forte. Um Corpo no Mundo me situa no planeta e me provoca como poeta, sem uns versos complexões, só o deleite da identificação. Tô consumindo tudo que sai de Luedji com a ansiedade de uma adolescentinha, confesso.

Lucas Faria (Fleeting Circus)

Para mim o artista mais marcante do ano foi King Krule. A figura dele, bem excêntrica, já tinha me chamado atenção tempos atrás​.​ Ainda não tinha parado para ouvir com mais atenção, mas tinha a intuição de que iria gostar. Esse disco dele​, The Ooz, ​lançado nesse ano​,​ é excelente, bem longo e denso, cheio de vinhetas jazzísticas, clima de pub inglês. Ele tem um som muito peculiar, com diversas influências, desde hip hop, indie a música africana​.​ A experiência de escutar o álbum inteiro é bem imersiva,​ “​cinematográfica​”, ​como os discos do Kendrick Lamar. Com destaque para Dum Surfer​, que acho que é um dos melhores singles do ano​. Escutei milhares de vezes, os fãs de Nirvana vão entender!

Mari Romano

Pra mim, o acontecimento de 2017 foi Ana Frango Elétrico, que não sei se consegue lançar seu disco Mormaço Queima ainda neste ano, mas que arrebentou. Ana Fainguenlert (“Frango Elétrico” ficou de herança do apelido do avô na faculdade) faz um daqueles shows em que você ri com as letras, com a poesia meio concreta, meio humor. A música em si é um lance que passa do pós-punk pra um samba frito, e do nada pra uma balada meio torta. O show dela é demais. Tá terminando de produzir o disco junto ao Thiago Nassif e mais uma galera, e ao vivo toca com Guilherme Lirio (outro desponte do ano), estreando oficialmente na bateria, e Pedro Carneiro assumindo de vez sua faceta baixista. Mas ela segura muito bem o show sozinha, se precisar. Gosto especialmente das músicas Torturadores e No Bico do Mamilo Peteleco Gelado. Além do mais, ela é linda, gente boa e tem 20 anos. “Enfant terrible”, sabe? Meio Rita Pavone. Vai longe.

Masm

Meu destaque musical seria a Dua Lipa. Sinto que o público consumidor de música pop sentia falta de um pop mais chiclete e simples, com letras divertidas, bem humoradas e descompromissadas. Dua Lipa apareceu no momento exato pra preencher esse espaço, e a produção e sua voz são um grande destaque. New Rules apareceu meio que do nada e já entrou na cabeça das pessoas, virou meme e tudo. Estou ansioso pros próximos trabalhos dela.

Filipe Catto

Para mim, o maior destaque foi Letrux. Honesta, visceral, dançante, autêntica, icônica e sem precedentes. A Letícia foi longe na sua linguagem e fez uma das estreias mais originais da música brasileira.

Moxine

O melhor de 2017 na música foi Letrux em Noite de Climão. Esse álbum e tudo que o cerca é transgressor e inspira liberdade.

Aline Lessa

Eu estava tomando um vinho com umas amigas quando o disco novo do Seu Pereira e o Coletivo 401 (Eu não sou boa influência pra você) apareceu pela reprodução automática do YouTube. Demos uma chance,​ já que não somos boas influências e moramos numa rua com “Pereira” no nome e no apartamento 401. Me apaixonei de cara. Acho lindo quando um compositor consegue se expressar com tamanha simplicidade e ainda assim carregar tanta poesia, profundidade e sinceridade na própria criação e falar por tanta gente. É quando a gente olha pro lado e coloca o cotidiano no papel que a arte cumpre uma das suas funções mais importantes, que é registrar o nosso tempo.

João F P Irente (Dolphinkids)

Minha escolha foi o músico Danger​,​ com seu álbum 太鼓Acompanho as composições e os projetos visuais dele ​há​ quase dez anos e ver seu primeiro álbum sendo lançado foi muito emocionante pra mim. Por mais que o mundo do synthwave francês seja completamente distante do meu,​ ainda consegui sentir o drama do músico independente e todo o esforço e paixão que foi colocado nesse projeto.

Raquel Reis

Pra mim, o artista que mais se destacou em 2017 foi o Tim Bernardes. E talvez esse destaque seja um até um pouco pessoal. Desde que Recomeçar chegou pro mundo, eu pude sentir de vez o outro lado do Tim, o lado mais sensível que se se sentia em Volta d’O Terno, e acho que essa coragem de mostrar um lado mais ​í​ntimo e pessoal dele pro mundo fez com que houvesse a percepção das pessoas de que ele é um artista completo, e ele é. E desde então ele tem ganhado um destaque e reconhecimento mais que merecido no ano. Recomeçar é definitivamente uma das coisas mais bonitas que eu ouvi em 2017, o Tim marcou esse ano pra mim.

Gui Hargreaves

Ekena, porque, desde que ouvi essa mulher cantando ao vivo, foi magnético: Achei de verdade que 2017 foi o ano dela (foi destaque no meu ano, com toda a certeza). Ekena canta de verdade e com verdade.

Fred Matos (Sound Bullet)

2017 foi o ano do CHON. Homey é, definitivamente, o disco do ano pra gente. É muita vibe, muita guitarra, muito clipe bom e consegue nos passar (quase) sem palavras a estética da banda, ou seja, quatro californianos nerds que gostam de tocar guitarra e gastar uma onda. Além disso, eles lotaram praticamente todos os shows deles no ano na gringa, fizeram tour no Japão e na Europa, foram convidados pra ser banda de apoio de outras consagradas do cenário alternativo.

Felipe Puperi (Tagua Tagua, Wannabe Jalva)

Acho que 2017 teve bons lançamentos, mas nada que virasse minha cabeça do avesso como aconteceu em 2016, que teve discos que eu realmente mergulhei dentro (talvez em 2017 esses não chegaram até mim). Um disco que eu ouvi bastante esse ano foi o último solo do Dan Auerbach, do The Arcs e Black Keys. Eu ~produtorzinho que sou~ piro muito nas soluções dos arranjos e  sonoridades, além do fato dele explorar o soul de uma forma bem contemporânea que me agrada bastante. Falando de Brasil, eu conheci a Luiza Lian no disco que ela lançou esse ano e super bateu aqui. Gosto bastante das melodias e das bases construídas em cima da desconstrução (uma colagem doida). Também achei legais as letras naturalistas que falam muito de símbolos de religiões afro brasileiras. Fizeram sentido nesse momento onde eu me aproximei mais musicalmente do Brasil e das suas origens.

Ana Cañas

O maior destaque da música em 2017 são todas as vozes que lutam, que somam e que batalham pelo amor, pela igualdade e pela justiça. Num país com tantos preconceitos absurdos, correntes retrógradas e discursos fascistas crescentes, se destacam os que prezam pela liberdade e os que amam. Juntxs, somos uma única voz.

Curta mais do especial #Destaque2017 no Música Pavê

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