Cinco Clipes para Entender a Crise dos Anos 2000

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Tem sido repetido pelas redes sociais nos últimos dias que maio de 2016 foi o mês com melhores clipes desde o início do Música Pavê há cinco anos e meio. Pois bem, para fechar o período, nada melhor do que olhar para trás e ver como os vídeos de hoje dialogam com a linha do tempo na qual estão inseridos.

E este era o propósito inicial deste artigo, até me dar conta de que olhar para produções de um passado não tão distante permite uma leitura interessante do que veio a ser chamado de crise da indústria fonográfica nos anos 2000.

Resumindo em poucas palavras, a década de 1990 viu o império das grandes gravadoras crescer ainda mais do que nas décadas passadas e produzir estrelas cujos faturamentos estavam ligados a enormes quantias de dinheiro, daí também um investimento expressivo sempre por parte dessas empresas. Quando o compartilhamento de música pela Web surgiu e se popularizou, a queda foi tão grande quanto a altura em que estavam essas corporações, que precisaram se reinventar para sobreviver em uma nova realidade de mercado – uma que hoje, cerca de quinze anos depois, entendemos como algo em constante mudança.

Observar estes videoclipes é contemplar o “antes” de um período que muito provavelmente nunca mais se repetirá na música (ainda existem grandes estrelas movimentando milhões, mas o dinheiro na indústria está muito mais pulverizado, daí também uma oferta muito maior de artistas), ao mesmo tempo em que nos ajuda a perceber um pouco mais do que tem dado certo tanto para o mercado, quanto para o desenvolvimento da linguagem do videoclipe.

##Oops!… I Did It Again

Acredite: Por maior que seja a produção deste vídeo, seu orçamento (“só” 750 mil sólares) é até tímido perto de outros títulos do período. Ele serviu para mostrar ao mundo a faixa-título do segundo álbum de Britney Spears, isso lá em 2000, em uma história que envolvia o pouso do homem em Marte com direito a cenários grandiosos e muitos efeitos especiais. Pode não parecer nada muito expressivo, mas, ao lado de outros clipes (como os próximos da lista), faz perceber como a repetição desse tema mostra que a indústria fonográfica sentia-se como parte de um futuro do qual nunca fez parte, já que não viu quanto seus próximos dias seriam obscuros. A ingenuidade de Oops! retrata muito bem o período, ainda que sem querer.

##Unpretty

Com uma mensagem sempre relevante sobre beleza interior versus a cultura da aparência, este clipe de 1999 coloca o finado trio TLC como protagonista de uma narrativa tão new age quanto hi tech com direito a um drone (ou um protótipo do que essa tecnologia viria a ser) de coadjuvante. Mais do que uma produção milionária (foram 1,6 milhões de dólares no orçamento), é mais da certeza de que o futuro seria leve e colorido, algo muito comum na cultura pop como um todo na virada do milênio. Novamente, reforça o quanto a crise veio de surpresa e ao contrário do que a maioria previa.

##What’s It Gonna Be?

Voltando ao assunto da virada do milênio, havia uma sensação perpetuada em muitos produtos culturais de que o futuro começaria ali, daí o uso de uma estética que remetia às referências do modernismo na arquitetura e artes plásticas, com linhas simples, cinzas e metais em evidência. Em alguns casos, como nesta parceria entre Busta Rhymes Janet Jackson, isso vinha carregado de efeitos visuais caríssimos para a época (também 1999), o que fechou os custos deste em 2,4 milhões de dólares. O tal do futuro nunca chegou e, não à toa, os próximos anos veriam a indústria fonográfica seguir na direção oposta esteticamente e abraçar o que ficou conhecido como a cultura hipster, carregada de nostalgia.

##Larger Than Life

Mais uma produção do mesmo ano que se aproveita da virada do milênio como inspiração, desta vez ambientando sua narrativa na virada do ano 2999 para dar visualidade a uma música na qual Backstreet Boys canta sobre a relação com os fãs, colocando-os como responsáveis pelo seu estrelato (uma dinâmica que ainda existe, embora, como dito antes, com menos estrelas do que naquela época). Seus cinco minutos de duração trazem um desfile de efeitos especiais em uma obra de ficção-científica que deixou de ser comum na indústria fonográfica da noite para o dia, assim como um orçamento desses (2,4 milhões de dólares) é raridade hoje.

##Heartbreaker

Diferente em estética e temática dos quatro vídeos anteriores, Heartbreaker encerra a lista como o mais caro de todos (2,5 milhões de dólares) para ilustrar a colaboração entre Mariah Carey Jay-Z no que hoje vemos com a mesma ingenuidade dos demais. Imagino que o orçamento foi tão alto principalmente pelos custos da produção em filme, não vídeo (como praticamente todos de hoje em dia), o que mostra também como a linguagem foi beneficiada pelos avanços tecnológicos que permitiram o acesso de boas câmeras a praticamente qualquer um, o que rendeu um fôlego extra para as obras de hoje em dia serem tão interessantes quanto as de ontem (quando não são ainda mais) mesmo em uma realidade – seja para os grandes ou para os independentes – com muito menos dinheiro investido.

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