Adele: Um Novo Caminho para a Música Pop

O mercado fonográfico é um case de estudo interessantíssimo para qualquer interessado por temas ligados à economia, comunicação ou ciências sociais. Seu surgimento é muito recente, mas com tantos acontecimentos e mudanças em sua dinâmica, é frequente observar uma dificuldade em percebê-lo como parte de uma indústria jovem. 2011 adicionou um novo capítulo a essa história ao mostrar a maturidade de um gênero que até então tinha grandes dificuldades em ganhar o respeito dos maiores amantes de música e da crítica especializada: A música Pop.

Uma das grandes responsáveis pela mudança de ritmo no cenário foi a inglesa Adele, que atingiu os grandes e pequenos públicos ao cantar com o coração na mão sobre as dores do fim de um relacionamento em seu segundo disco, 21 (idade que ela tinha durante as gravações, entre 2009 e 2010). Nesse período, Lady Gaga chamava a atenção dos críticos ao apresentar uma qualidade musical nem sempre vista no pop dançante, como Madonna e Michael Jackson já tinham feito antes.

Só que, dessa vez, não se tratava de música com bases eletrônicas para as pistas, mas o pop rico no instrumental com influência direta no Soul e no R&B – herança de artistas recentes como Amy Winehouse (referência sempre citada por Adele, que estudou na mesma escola de artes que Amy em Londres). Com o amparo de uma excelente banda (e do produtor/neo-mago Paul Epworth), ela canta composições muito bem construídas que agradam a diversos ouvidos.

Rumour Has It (ao vivo no iTunes Festival 2011)

Naturalmente bonita, Adele já avisou que não vai emagrecer para se enquadrar aos padrões de beleza que o mercado impõe. Sua sinceridade é ainda mais palpável em suas letras, todas muito pessoais e que narram episódios de sua vida. O novo álbum é todo construído em torno do fim de seu último namoro, começando com Rolling in the Deep (talvez, a música mais tocada no mundo em 2011 – certamente no top 10 global), que lamenta o término cantando que eles poderiam ter ido mais longe, e se encerra com Someone Like You, uma tentativa de se conformar com a situação.

Os mais desatentos podem apenas ouvir sua potente voz e achar que se trata de mais uma “diva”, como Mariah Carey, quando na verdade ela não se encaixaria muito bem nessa categoria. Dona de um humor ácido, Adele não se acanha em contar piadas sujas no palco ou mostrar o dedo do meio quando fala sobre o ex. Diz morrer de timidez sempre que sobe no palco e que ainda não se acostumou à fama. Há poucos meses, precisou desmarcar diversos shows para fazer uma cirurgia em suas cordas vocais, mas está bem e volta ao trabalho em 2012.

Todas essas características adicionam ainda mais humanidade ao seu trabalho, quebrando ainda mais as barreiras de identificação do público com sua música. Ao contrário da maior parte das popstars, suas apresentações não possuem grandes efeitos visuais ou pirotecnias, colocando ela e sua música como centro das atenções durante todo o tempo. O resultado de tudo isso foi 13 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, mais do que qualquer outro artista ou banda em 2011, presente ao mesmo tempo no iPod de adolescentes que a tem como ídolo e nas playlists de gente mais velha que reconhece o valor de suas composições.

Adele não traz muitas inovações criativas à Música, mas adiciona qualidade ao cenário em que está inserida, de maneira que será a base de comparação para os artistas de pop com instrumental que aparecerem pelos próximos anos – e será um grande desafio destroná-la. É difícil afirmar por mais quanto tempo ela estará tão em evidência, embora tenha fôlego para continuar no auge por mais alguns lançamentos, mas provavelmente vamos sempre olhar para 2011 e nos lembrar do upgrade que Adele conferiu às programações de rádio com seus hits.

Turning Tables (ao vivo no David Letterman)

 

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