2016 Resumido pelos Músicos

Como já é de costume, o Música Pavê abre espaço em seu especial também para que outros músicos avaliem o ano e apontem quais foram os artistas que mais marcaram o período.

Sobre 2016, eis quem alguns de nossos favoritos – gente que está sempre aqui pelo site e em nossas playlists – apontaram como ícones dos últimos doze meses por seus trabalhos, mesmo se lançados anteriormente, e o que representam para a música como um todo – inclusive no novo ano.

(Acompanhe mais do especial Resumão 2016 no Música Pavê)

Leo Justi comenta MC Carol

Pra mim, 2016 foi o ano da MC Carol. Tem tempos que admiro o trabalho dela, queríamos trabalhar juntos, e parece que tudo aconteceu esse ano pra ela. Rolou a parceria com Tropkillaz, que a levou até Karol Conka, que a convidou pro Lolla, que deu projeção e abriu outras tantas portas – como virar garota propaganda de uma marca de cosméticos. Ela levou o funk a outro patamar e se mostrou mais do que uma entertainer: MC Carol assumiu o papel como agente de uma mudança social, botando a boca no mundo e se posicionando sem medo sobre feminismo, racismo, gordofobia, violência policial e outros assuntos, através das mídias sociais e da música”

Irina Bertolucci (Garotas Suecas) comenta Justin Bieber

Esse ano não deu pro rock na minha lista. Tudo aconteceu de uma maneira um tanto inesperada: meu amigo Didi Effe ouviu o novo single (vazado) da Rihanna e perguntou na net se “Work era a nova Sorry do Justin Bieber”. Ouvi Work e não entendi nada (hoje amo, e provavelmente a Riri é meu número 2 do ano — e número 1 no <3 — junto com o Drake). Daí fui lá ouvir Sorry, seiláquequeisso, pra ver se era elogio ou xingamento, pra ver o tipo de besteira que ele andava aprontando. E minha vida nunca mais foi a mesma. Abri logo no YouTube, meu maior erro. Dei de cara não apenas com aquele refrão chiclete, mas com aquele clipe absurdo. Ferrou. Assisti umas 15 vezes no primeiro dia, já querendo virar dançarina, e no segundo dia fui pros outros clipes (lançados todos de uma vez, com a mesma coreógrafa australiana bafônica, uma espécie de manifesto) e mais umas 20 vezes de Sorry. Nesse mesmo dia (fui até procurar, foi dia 28 de janeiro), a Jout Jout fez um video chamado “probleminha” expondo o mesmo problema, e eu soube que não estava sozinha. 2016 pra mim foi do menino canadense e de Sorry e não teve pra ninguém. Ainda não enjoei e, se pego no rádio, aumento e canto junto. Acho que foi o ano que o Justin pediu desculpas por ter sido tão escroto nos últimos tempos, falado merda, dado vexame. E pra mim ele tá perdoado”

Sara Não Tem Nome comenta Pedro Carneiro

Conheci o Pedro Carneiro em 2011, quando participei da Mostra Cantautores em BH. O Luiz Gabriel (organizador da mostra) me disse que achava que tínhamos coisas em comum. Na época, não tive muitas oportunidades de conhecer o Pedro, mas agora em 2016 ele me deu seu disco, o Vovô Bebê. De início, achei as músicas estranhas, não estava acostumada com a sonoridade. Continuei escutando várias vezes, geralmente quando estou na rua. Com o tempo já tinha me acostumado, me familiarizado, e fui percebendo os detalhes, os timbres, entendendo as letras, pensando se ele já tinha escutado Asa Chang, se Villa Lobos era uma referência… Junto do disco, Pedro colocou também um livreto onde conta sobre sua vida, seus processos de composição, de uma maneira bem interessante, bem íntima. Isso me ajudou a aproximar de sua música e de sua pessoa, e fiquei pensando como acho importante que existam artistas como ele”

Rubel comenta Chance the Rapper

Coloring Book é um disco de rap sobre deus, familia e não ter uma gravadora que você coloca pra tocar e a vida fica boa instantaneamente”

Peartree comenta Mahmundi

Mahmundi trouxe um disco quase impecável com seu lançamento autointitulado. Sua personalidade forte e seu bom gosto por elementos nostálgicos são destaque num álbum absurdamente polido. Além disso, ela conseguiu se projetar como um dos maiores potenciais da música brasileira sem depender de clichês do momento. Adorei!”

César Lacerda comenta Tiago Iorc

“O fenômeno da Internet e as suas redes sociais e de compartilhamento, a profusão dos nichos e guetos, a mudança no paradigma das gravadoras, o novo mercado, enfim, tudo isso fez com que nos últimos dez anos se crescessem as distâncias entre o mundo independente e o mainstream. E, naturalmente, distanciasse também o grande público da vasta produção musical alternativa, ou independente. Interessante perceber um artista alternativo cruzar a fronteira e chegar ao mainstream com representatividade, potência, liberdade criativa. Interessante perceber que ele é o único com essa característica. Tudo nele é, em suma, interessante por demais”

Pedro Pastoriz comenta Negro Léo

Rolou tanta produção de disco aqui no Brasil nesse ano que fica difícil destacar um único nome de artista ou disco. São cenas inteiras, selos, cidades. Mas o mais importante, e que me deixa otimista no meio de toda essa crise econômica/cultural/política, é que essas produções tem melhorado muito também, é geração atrás de geração se misturando e produzindo, muitos núcleos nas capitais e nos interiores. A cada show que vou fazer em cidade nova, sempre volto cheio de discos incríveis de bandas locais que nunca tinha ouvido falar. Pois bem, quando fui convidado a sugerir um destaque do ano imediatamente lembrei dessa baita cena do Rio, tem muita coisa foda sendo feita lá, Ava Rocha, Negro Léo, Jonas Sá, Nitú, Séculos Apaixonados, e vários outros. A linguagem dos bichos de lá é solta e louca. Depois de ouvir os discos deles todo o resto fica meio careta. Bueno, pra ilustrar essa galera do Rio lembrei de um disco que foi lançado esse ano, o Água Batizada, do Negro Léo. Já conhecia o Ilhas de Calor (2014) e o Niños Heroes (2015), e é uma baita estética, letras fodas, fotografias loucas, mas achava tudo meio enigmático. Nesse último, parece que ele tá mais popular, ele acertou em cheio. Disco incrível.”

Pedrinhu Juqueira (Haicu) comenta Negro Léo

“O artista do ano na minha opinião foi Negro Léo, com o disco Água Batizada! Com canções belíssimas arranjos hiper molhados, recheado de um sentimento etéreo. Letras e sonoridades incríveis! O disco ficou em looping na minha cabeça, um álbum pop mas sem cair naquela coisa  batida. Um pop bem mais derretido e ousado”

Beto Mejía (ex-Móveis Coloniais de Acaju) comenta Vitor Araújo

Vitor Araújo, pra mim, é o cara de 2016. Que álbum impressionante o Levaguiã Terê. De mitologia indígena a misturas eletrônicas. De simplicidade melódica à complexidade de texturas e timbres. O mago de Recife não veio pra brincar, não. O show no Auditório do Ibirapuera provou isso. Memorável e surpreendente!”

Bruno Schulz (Cícero, Xóõ) comenta Vitor Araújo

Então, em setembro saiu Levaguiã Terê e fiquei travado (no bom sentido) nele por um bom tempo! É um disco de climas variados e muito timbre… Tem uma força de trilha sonora e leveza de meditação, ao mesmo tempo. Difícil de explicar, mas tem lá a o piano e a composição do Vitor, é bastante percussivo em alguns momentos e mais solto em outros, tudo isso com uma voz (a dele, cantando) entregando melodias que, dependendo da hora que você estiver ouvindo o disco, qualquer pensamento seu pode servir de letra. Isso é legal.  A produção e a banda que gravou junto com Vitor foi impecável, teve o Bruno Giorgi tirando o som, o Pacheco (Baleia) participando nos violinos, as guitarras do Ventura (Ventre) e as baterias lindíssimas do Hugo Medeiros (Rua) que inclusive é um dos meus bateristas preferidos já faz um tempo! Assisti ao show de lançamento que rolou aqui no Rio e saí gostando mais ainda do disco… Tanto pela banda improvavelmente foda que ele reuniu quanto pela viagem do disco ter sido traduzida tão bem no palco. Digo isso porque em discos cheios de nuances, climas e mudanças (como é o Levaguiã) muitas vezes é difícil de se conseguir essa tradução pro “ao vivo” tão bem como vi acontecer naquela noite. Gostei da forma que a alfaia entrava e saía de cena, no centro do palco, nas horas de mais força dos arranjos. E claro, do Vitor guiando tudo no piano. Bem bonito. Vale muito a ouvida, na hora certa… Acho que tudo tem hora, e esse disco merece uma hora pra ele. E vá vê-lo ao vivo se puder também”

André Ribeiro (Alaska) comenta Céu

É bem difícil acreditar que esse ano acabou. Que ano bizarro. E apesar de tudo, foi com certeza um dos anos mais interessantes pra música nacional. Entre lançamentos incríveis como Melhor Do Que Parece, d’O Terno, e Mulher do Fim do Mundo, da rainha Elza Soares, um disco me chamou muita a atenção. Tropix é uma obra de arte fantástica e extremamente sensorial. Muitas perguntas precisam ser respondidas sobre a sonoridade desse disco, mas talvez seja melhor nunca saber”

Felipe De Vas comenta Elza Soares

“Elza Soares é o destaque do ano por todos os aspectos possíveis e cabíveis em um artista. Primeiro pelo produto em si, o trigésimo quarto disco dela, A Mulher do Fim do Mundo, é uma obra prima do conceito de samba sujo paulistano com referências de rock, rap e eletrônico. Com a voz de uma cantora de 86 anos! Uma voz que canta sobre transsexualidade, violência à mulher, com gírias e líricas completamente viscerais, poéticas e moderníssimas. Segundo pelo simbologia de uma mulher que já foi considerada a “cantora brasileira do milênio” no começo dos anos 2000 e ter passado por mil renovações para chegar a um álbum que conversa com todas as idades, classes, raças sem perder a tônica de revolução que a música transporta ao ouvinte. Um exemplo artístico ímpar de perseverança e luta pela evolução pessoal e pela vivência sóbria da arte sobre as questões sociais num período político tenso no Brasil e no mundo.  2016 foi o ano de Elza Soares. A rainha da música popular brasileira”

Lila comenta Solange

Acompanho a Solange desde que ela veio fazer um show aqui no Rio, no Circo Voador, pelo Queremos, uns anos atrás. Esse ano, ela se revelou mais como artista e deixou de ser a irmã cool da Beyoncé para estar cada vez mais em contato com quem ela é. Mais do que uma cantora e compositora, ela se mostrou nesse ultimo álbum, e gostei muito de ver esse processo autoral e íntimo”

Felipe Vellozo (Bilhão) comenta Maggie Rogers

“Esse ano eu conheci a Maggie Rogers. As coisas estão muito rápidas mesmo. A mina tem algumas músicas antigas por aí, mas foi nesse ano, depois de uma visita do Pharrell à universidade onde ela estudava, que as coisas ficaram mais rápidas. Esse caso ficou bem conhecido por conta disso, a cara de espanto do cara ao ouvir a musica da Maggie Rogers é um meme pronto. O Spotify dela tem duas músicas só e os clipes estão acompanhando os singles. Acho que ela é a cara desses tempos, da audição rápida, fragmentada, do sucesso com uma música só superando o one hit wonder a cada single lançado. Ela faz uma música das sensações e consegue soar muito pop. To curioso pelas próximas sendo single ou disco”

Ian Fonseca (Supercolisor) comenta Bratislava

Quem mais me tocou em 2016 foi Bratislava – que ano inspirador eles tiveram. Trabalharam com muita energia o seu ótimo Um Pouco Mais de Silêncio (lançado no fim de 2015) num ascendente de performance e coesão em uns vinte shows: estive em todos que pude e ainda tivemos a honra de dividir o palco em vários deles. Sobretudo, apesar da situação preocupante do país, saíram desse ano vencedores e, anotem, 2017 vai ser deles: vi surgir nos últimos meses peças de vídeo, músicas e ideias que devem chegar ao público ainda no primeiro semestre e que serão coroadas com uma participação – se bem os conheço – explosiva no Lollapalooza, logo depois do carnaval. É uma banda que pra mim realiza a principal vontade deu um artista independente: se comunicar com o público de forma ágil, sincera, direta e original – destaco essa última qualidade, a originalidade, gritante para todos que já ouviram e ainda vão ouvir esses caras. O som da Bratislava é um ponto fora da curva dentro do universo da música brasileira atual – é sofisticado porque é simples, é inteligente porque usa recursos líricos intelectualizados sem criar um distanciamento elitista, e é interessantemente enérgico porque vibra sem apelações previsíveis. O caminho que eles estão traçando é único e dá gosto de vê-los felizes, criativos e preparados pra um futuro próximo brilhante”

Victor Meira (Bratislava, Godasadog) comenta Aloizio

Aloizio é um artista versátil, enérgico e talentoso. 2016 foi um ano foda pra ele, ano de trabalhar o Esquina do Mundo, disco que lançou em 2015, de tocar em festivais importantes como Febre, Rock Sem Fronteiras e Móveis Convida. Lançou um clipe lindo de uma das músicas mais bonitas do disco, Baile das Ondas, fez shows em São Paulo, em Brasília, no Rio, tocou em bloco de carnaval. Vingou a incrível Dorme a Cidade (que tive o prazer de tocar com ele em um show na Casa do Mancha, SP, nesse ano) como trilha de um longa-metragem nacional com larga distribuição nos cinemas. Deu rolê com a fabulosa Brittany Howard (Alabama Shakes) na Teodoro Sampaio pra ajudá-la a escolher a guitarra que ela usaria no Lollapalooza Brasil 2016. Tocou em palcos grandes e palcos pequenos, com formações diferentes na banda, sempre acompanhado por músicos igualmente talentosos. Sua energia no palco se mistura à voz rouca e aos solos virtuosos de guitarra, contagiando quem veio curtir o show. Aloizio é um artista comprometido com sua arte, e ainda vai nos presentear com muita coisa bonita que está por vir”

Matheus Brant comenta Cary or Not Cary

Já que a música aqui é ‘pra ver’, o que mais me marcou nesse 2016, em termos de audiovisual, foi o clipe Reichamano, produzido pelo coletivo Cary or not Cary e protagonizado pelo músico Rodrigo Carioca. Uma síntese de referências que passam pelo o funk rock dos anos 80/90 (primeira fase do Red Hot Chilli Peppers, entre outros), acenam para Michael Jackson e a percussão em copos de vidro, desaguando em uma música com letra em português e sons que sugerem o inglês. Tudo isso ganha mais sentido com a estética analógica das imagens, as dancinhas e ‘closes’ – atuação maravilhosa – do Carioca e um certo tom nonsense geral do video. Falta de sentido esta, aliás, que é apenas aparente, pois serve, na verdade, como eficiente meio de fisgar a atenção do espectador que, sentindo os efeitos da provocação, passa, intuitivamente, a tentar encontrar as belezas estéticas do clipe/música. Ou, simplesmente, a dançar – o que já é um feito”

Kelton comenta BaianaSystem

“2016 teve muita música incrível rolando por aí, mas de tudo que pude ouvir o que mais me impressionou foi Duas Cidades, do Baiana System. Um disco ao mesmo tempo experimental e acessível, vanguarda e povão. Não bastasse o ótimo disco, o show dos caras foi provavelmente a coisa mais sinistra que assisti este ano, peso absurdo, cenografia e iluminação impecáveis, conexão direta com o público. Sensacional”

Cairê Rego (Baleia, Xóõ) comenta Carne Doce

Pra mim, a banda do ano é Carne Doce. Lançaram um disco que, ao mesmo tempo que é muito pessoal, lida com questões políticas importantíssimas para a sociedade no momento. Além de tudo, com músicas que não soam panfletárias ou baratas. Música pra gente inteligente, mas sem ser elitista. Carne Doce vive e é a expressão dessa dicotomia da música independente brasileira. Vivemos num momento que é necessário que as bandas busquem mais público, tenham mais visão comercial, mas não percam a sua atitude e o seu estilo. Princesa prova que isso é possível. Salma se mostra nesse disco como uma das melhores letristas, quiçá cantoras, do Brasil. Um disco importante, para todos ouvirem”

Flavio Juliano (FingerFingerrr) comenta Radiohead e Kanye West

Pra mim, o destaque do ano foram os lançamentos antagônicos dos discos do Radiohead e Kanye West. Vou explicar. Thom, como líder criativo da banda mais inovadora e inventiva dos últimos 30 anos, lançou seu novo disco, A Moon Shaped Pool, sem inovação. Não empurraram os limites sonoros (na música Like Spinning Plates, de 2001, Thom canta as palavras de trás pra frente e na pós-produção invertem para tentar soar inteligível) ou do mercado da música (inovaram com o ‘pague quanto quiser’ no disco In Rainbows de 2007)… como costumavam fazer. Também não desafiaram a gente com sua arte gráfica, como estávamos acostumados a ver. Me deu a impressão que tiveram um pouco de preguiça ou, na verdade, chegaram numa fase em que não tem mais sentido fazer esse esforço todo para soar diferente deles mesmos. Inclusive, o disco soa como um compilado de músicas influenciadas pelos seus oito discos anteriores. E tudo bem, seja qual for o motivo. Mas a consequência é um sentimento de irrelevância artística por parte de um dos seus maiores fãs. Por outro lado, Kanye West lançou The Life of Pablo com a mesma energia e inquietação que Thom Yorke e Radiohead faziam as coisas. O disco foi colocado no mercado para ser uma obra viva, sempre em mutação, por meio de aprimoramentos e atualizações das faixas que Kanye soltaria ao longo dos meses – sem avisos, sem alardes. A ideia é incrível e, mesmo se acabou não tendo tantas novidades quanto poderia, ela inspirou outros artistas a remixar o disco das mais variadas formas (o produtor japonês TOYOMU criou sua versão sem sequer ouvir o álbum). A ideia é inovadora e abriu muitas portas e chacoalhou muitos neurônios. Pra mim, e creio que para muitas outras pessoas, foi uma forma de aprender como funcionam evoluções e inquietações artísticas. E, no final das contas, todo mundo saiu ganhando com novas ideias. 2016 foi bom”

Igor Peixoto (Morfina) comenta Kanye West

“‘Um ano em que Kanye lança um disco é um grande ano para a música’. Lembro de comentar isso em 2013, quando foi anunciado o álbum Yeezus. Eu já acompanhava de perto todos os passos do artista. Sabia cantar todas as letras de seu álbum de estreia The College Dropout, fiquei emocionado quando ouvi pela primeira vez o Late Registration, ali ouvi melodias tão bonitas e sensíveis quanto às dos meus discos preferidos do Paul Simon. Depois veio Graduation, e lembro que me impressionei com a quantidade de elementos pop em um álbum de rap, o meu preferido daquele ano. Apenas um ano depois veio o 808s and Heartbreak com um novo Kanye no comando, cantando e impondo o autotune que até hoje reverbera nas gravações do pop americano, e aí eu já o considerava o artista mais produtivo e irreverente do mainstream moderno. Então chegou 2010 e o My Beatiful Dark Twisted Fantasy foi lançado. Não havia dúvidas nos meus ouvidos que eu estava diante de uma obra maior. Esquizofrênica e grandiosa, foi com ela que Kanye desenhou o mapa que guiou as obras primas que surgiram nos três anos seguintes: Bon Iver, Channel Orange (Frank Ocean), good kid, m.A.A.d city (Kendrick Lamar) e 20/20 Experience (Justin Timberlake) não existiriam sem a influência de Kanye. Eu não sabia que rumo ele podia tomar, a pressão era enorme depois do aclamado disco anterior, pensei que ele ia acabar soando repetitivo, mas um Yeezus minimalista, curto e cru surgiu. Até a capa do álbum era uma contrapartida do que havia sido feito antes. Genial. Em um ano extremamente produtivo para a música, ele conseguia se destacar entre os primeiros mais uma vez. 2013 foi um grande ano. Agora estamos em 2016 e um novo disco está para ser lançado. Desconfio que não seja o melhor momento para isso, um Kendrick Lamar com um discurso impactante e uma habilidade admirável vem dominando a cena, enquanto um Drake, mais pop que nunca, ataca as rádios. Somado a isso, um Kanye cada vez mais descontrolado, impulsivo e polêmico aparece nas mídias, proferindo insanidades e prepotência, anunciando novo título para o álbum e uma nova tracklist a cada mês. Parece-me perdido. Então, The Life of Pablo é lançado e soa exatamente assim. E é lindo! Um delírio de uma mente perturbada que ganha forma e sentido a cada nova ouvida. Em meio a letras constrangedoras e clipes controversos, Kanye dá vazão a sua loucura e consegue se manter em destaque durante todo o ano. Esse texto não é um tributo isolado ao The Life of Pablo, muito menos à pessoa, quase sempre repugnante, de Kanye West. É sim um reconhecimento ao artista que, sempre que se move, se renova e deixa um rastro que se alastra por todo o segmento musical e, goste ou não, é impossível não notá-lo. Ainda não podemos delimitar o impacto e as consequências de suas obras ou prever os seus próximos passos, mas podemos olhar seu histórico e confirmar: um ano em que Kanye lança um disco é um grande ano para a música! Aguardemos”

Acompanhe mais do especial Resumão 2016 no Música Pavê

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