2016: A Música É Feminina

2016 chegou ao fim e, para a maioria de nós, isso é um alívio. Muitas coisas grandes aconteceram e o ano foi difícil. Tentamos nos apoiar em qualquer coisa positiva que ocorresse, mesmo sendo algo bem pequeno. Eu, como sempre, me apoiei na música. Ouvimos grande canções serem lançadas e fomos presenteados com hits incríveis e, para mim e muitos ao meu redor, foram as mulheres que dominaram a música nesse ano.

Vamos falar a real, as mulheres sempre arrasaram na música. Posso ficar horas aqui escrevendo quantas já me inspiraram musicalmente, mas quero destacar 2016 por um motivo específico. Como já citado, o ano foi turbulento para muitos de nós e, para mim, os álbuns lançados por Beyoncé, Lady Gaga, Solange, Rihanna, Lay e muitas outras mulheres me ergueram de uma maneira única.

As mulheres tem de lutar muito todos os dias. Sofremos constante opressão e, infelizmente, nem todas nós temos onde expressar os nossos sentimentos. Por isso, é importante termos artistas como elas no mercado: Pessoas que expressam a dor que sentimos (seja por opressão ou um coração partido) em suas letras e melodias, artistas que fazem de suas músicas um grito. Nem todos os álbuns lançados neste ano tinham uma mensagem política, mas isso não é necessário para nos sentirmos empoderadas por elas. O simples fato da artista arrasar nas paradas e mostrar que mulheres também podem marcar história nos ajudam a não nos sentirmos sozinhas.

Uso Lady Gaga como um primeiro exemplo. Ela finalmente voltou para os olhos (e ouvidos) do público. Durante o Oscar, cantou Till It Happens To You, canção composta para o documentário The Hunting Ground, que fala sobre os estupros que ocorrem nas universidades americanas. Foi um momento marcante que deixou muitos em casa com olhos cheios de lágrimas. Depois desta apresentação, durante o ano todo, Lady Gaga ainda lutou para falarmos cada vez mais sobre os abusos e sofrimentos que as mulheres sofrem. Foi extremamente corajosa e contou sobre o abuso que sofreu e como lidou com o trauma. Gaga não parou por ai, ela intitulou o seu quinto álbum como Joanne em homenagem a sua tia, sobrevivente de um abuso sexual, falecida aos 19 anos com lúpus. O CD ainda conta com uma canção com o mesmo nome e Gaga expressou todo seu sofrimento na música. A letra é simples, melancólica e homenageia sua tia de uma maneira linda.

O álbum veio no final do ano e nos mostrou um novo lado da artista. A cantora está se distanciando cada vez mais do pop e, desta vez, se arriscou no folk. O mais incrível é que Gaga aventurou-se em algo novo, mas continuou fiel à sua essência. O som que ouvimos em Joanne é muito característico de Gaga, mesmo não sendo 100% pop. Canções como Diamond Heart, Perfect Illusion e Dancing in Circles são bons exemplos para mostrar o quão diferente a artista está, mas que, ao mesmo tempo, revelam uma letra com essencialmente familiar à sua obra. Ao todo, Lady Gaga nos entregou um álbum divertido, nos mostrou a evolução que passou durante os anos e mostrou o quão boa ela pode ser, independente do gênero musical. Gaga não deixou o medo das críticas a guiar, nem deixou que isso a impedisse de evoluir musicalmente. Ela segue o seu próprio caminho e não tem medo de bater de frente com aqueles que a criticarem.

Outra mulher que inspirou nesse ano foi Beyoncé. Ela é uma artista que literalmente faz o que quer, a hora que quiser. Ela conquistou o que muitos desejam – o controle absoluto de suas músicas – e possui um poder imenso, utilizando-o de maneira inteligente. Não lança nada que não seja exatamente do jeito que ela quer, o que a torna ainda mais forte. Beyoncé utiliza de seu poder para pregar sobre o feminismo e enriquecer a cultura negra, que é apropriada e criticada (sem fundamento) por muitos. Com seu sexto álbum, Lemonade, Beyoncé não só concretizou o seu discurso feminista, como também deu vida a seus ancestrais e à sua cultura.

Como o seu lançamento no ano passado, Lemonade é um álbum visual. Os vídeos, junto dos textos lidos pela própria Beyoncé, complementam perfeitamente as músicas e conseguem transmitir ainda melhor as emoções por trás de cada uma, mas não é preciso ver o filme para entender (ou sentir) a mensagem de Lemonade.

Com as canções, conhecemos uma mulher que acabou de descobrir a infidelidade de seu marido. O álbum nos leva numa verdadeira montanha russa de emoções que nos faz sentir tudo com ela. Nós a vemos passar por tristeza, raiva, indiferença e, por fim, uma grande reflexão. Ao final, percebemos que Lemonade não é sobre traição, mas sobre perdão. Ao meio de tudo isso, a artista ainda nos emerge em músicas que contam sobre o seu passado e sobre a luta feita pela população negra.

Beyoncé fez um belo trabalho este ano. Ver os vídeos e ouvir as músicas é uma experiência e tanto. Ela ainda teve participação de músicos como Jack White, The Weeknd, James Blake e Kendrick Lamar,  tendo usado as melhores características de cada artista em suas respectivas música: Don’t Hurt Yourself traz o rock de White, 6 Inch é sensual como tudo que The Weeknd faz, Forward é melancólica como James Blake e Freedom traz o rap e a luta de Kendrick Lamar. Ela conseguiu aprender e evoluir com cada participação sem perder sua própria essência e história. Não consigo olhar para tudo isso, analisar e não me sentir completamente inspirada por essa mulher.

Existem outras duas artistas que me marcaram imensamente nesse ano, ambas com poderosos discursos de força. Solange, irmã de Beyoncé, é uma delas. O seu terceiro álbum, A Seat at the Table, é espetacular e traz um crítica fortíssima sobre a história do racismo nos Estados Unidos, tendo usado sua voz e suas músicas para expressar a dor que esta sentido com toda a violência policial contra os negros em seu país. O disco é totalmente dedicado à causa, cada música fala sobre algum aspecto da luta e muitas glorificam o seu povo. A Seat at the Table traz tristeza, dor e sofrimento, mas, ao final, nos dá uma mensagem de força e sobrevivência. Solange é uma artista bem diferente de sua irmã, traz um álbum pessoal e cheio de alma. Foi um dos discos que mais me tocou em 2016.

Não posso deixar de falar sobre uma das rappers que mais me marcou nesse ano, Lay. O seu EP 129129, lançado no começo de 2016, foi uma das coisas mais singulares que ouvi. Para começar, temos a capa do disco, composta por dois saltos que formam um útero. Isso já passa a mensagem: é uma obra para mulheres. As letras são honestas, sem censura e transbordam o feminismo da rapper. Lay usa um linguajar direto e sua voz passa uma atitude forte que nos diz: vou ser ouvida, não importa o que você pensa sobre mim. Escutei as músicas em momentos de fraqueza e cada uma delas me deu forças para continuar seguindo a luta feminista. Chegando na última faixa, Mar Vermelho, a única coisa que sentia era gratidão. Agradeço a Lay por ter feito um EP tão honesto, cheio de vida e que deve ter ajudado muitas mulheres pelo Brasil.

Tem muitas outras artistas que queria citar, como, por exemplo, Rihanna, Alicia Keys, Karol Conka e MC Carol. Queria dedicar o texto a todas elas e ficar horas escrevendo sobre cada álbum. Não podemos nunca deixar de apoiar umas as outras, nos erguermos e glorificarmos a todo momento, porque, neste mundo em que vivemos, onde somos ensinadas a estar em constante competição umas com as outras, é importante nos ajudarmos, lembrarmos que somos todas únicas e que estamos no mesmo barco. Vamos sempre divulgar trabalhos alheios, aprender com outras mulheres e mostrar para o mundo que, como essas artistas, não somos fracas e que nossas vozes também devem ser ouvidas.

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