A Jornada Imagética do Coldplay

Independente dos adjetivos usados, se você acompanha a carreira do Coldplay há um tempo, provavelmente sabe apontar características distintas no som de cada um de seus álbuns. Acompanhando essas mudanças estão os trabalhos visuais que ilustram os cinco discos lançados entre julho de 2000 e essa semana, com a chegada de Mylo Xyloto às lojas. Juntando isso aos rumores de que esse seria o último trabalho da banda, vamos dar uma olhada na jornada imagética realizada ao longo de seus lançamentos. Vale ressaltar nem todos os grandes nomes do mercado pop se preocupam com a coesão de seus álbuns quanto o Coldplay, que sempre entrega ao público uma experiência única com começo, meio e fim dentro de cada disco. E se você não estava em nosso planeta nos últimos dez anos e não conhece muito do som deles, aproveite nossa coletânea de clipes para ficar por dentro de suas músicas mais conhecidas.

Parachutes (2000) – Com uma simples fotografia de um globo iluminado, o mundo teve seu primeiro contato com a banda. A simplicidade da capa revela não apenas uma época em que a verba disponível para a banda investir na arte era muito limitada, mas também um tempo em que o rock de levadas indie e pop que o Coldplay fazia soava tão sincero, com os hits Shiver, Trouble e Yellow – ainda hoje preferidas de muitos fãs. O piano de Chris Martin já se mostrava presente, mas quando a gente ouve Parachutes do início ao fim de uma vez só, o que fica na memória é o bom, velho e simples violão marcando as baladas da segunda metade do disco.

A Rush of Blood to the Head (2002) – Feita pelo fotógrafo Sølve Sundsbø para a revista Dazed & Confused no fim dos anos 90, a imagem que estampa o álbum tornou-se uma das mais icônicas não só da discografia da banda, mas entrou para o hall das capas já “clássicas” do rock britânico. Mais do que isso, ela revela a complexidade encontrada nas composições muito mais densas do que em Parachutes, em estrutura, instrumental e temática. O disco foi gravado na mesma época em que o mundo lamentava os atentados terroristas de 11 de setembro, carregando em si a tensão e as incertezas do período, trabalhadas tanto no panorama social (como em Politik e na faixa-título) e na intimidade emocional (The Scientist, A Whisper e Amsterdam). As primeiras apostas da gravadora para serem hits seguiam um pouco o clima do trabalho anterior (In My Place e God Put a Smile Upon My Face), mas foi Clocks que mais trabalhou no público a dimensão da obra. A ausência de cor na capa, com a imagem na tensão entre o movimento e a estática, permite uma interpretação pessoal para cada ouvinte, embora as sensações (e também o favoritismo dessa obra) sejam semelhantes na maioria.

X & Y (2005) – Desenhada pela dupla Tappin Gofton, essa capa se inspira no Código Baudot, uma forma de telegrafia, para ilustrar o disco que já nascia cheio das expectativas do mercado de superar seu antecessor. Com suas composições construídas quase matematicamente (daí um dos motivos de ser batizado com as duas letras mais usadas para incógnitas), as canções se inspiram nos trabalhos de nomes como David Bowie e Kraftwerk, daí o ar retrô na arte. O disco foi também dividido em duas partes, como os lados A e B de um vinil, só que aqui chamados de X e Y. Tudo remete a ideia de duplas, para também denotar um casal (X e Y são também os cromossomos para cada sexo), daí a inspiração em códigos binários para sua arte, em uma pegada oitentista que era tendência na metade daquela década, quando o álbum foi lançado.  As canções Talk, Fix You A Message reforçam a ideia de comunicação presente em toda a obra.

Viva la Vida or Death and All His Friends (2008) – Mais um trabalho da dupla Tappin Gofton, dessa vez pegando emprestado o clássico A Liberdade Guiando o Povo do francês Delacroix (1830) para dar a grandiosidade almejada (e atingida) pela banda nesse trabalho, que pega seu nome emprestado de um quadro de Frida Kahlo. O Romantismo francês ilustra não só a capa, mas empresta sua força e expansão para as composições de características tão múltiplas. É o álbum que passeia por canções mais dark como Violet Hill e Yes, doces como Strawberry Swing e Lovers in Japan, e ainda 42 e as duas faixas que batizam o álbum, as três muito grandiosas – característica que prevalece na percepção da obra completa. Os pormenores nas canções e em seus interlúdios também tem tudo a ver com o quadro cheio de detalhes e interpretações.

Mylo Xyloto (2011) – E após tanta grandiosidade, para onde ir? A resposta da banda parece ter sido a escolha de ir ainda mais longe, em uma obra ainda maior. Para isso, o Coldplay arquitetou o maior de seus exageros, criando um disco cheio de hipérboles – ainda que anunciado como uma obra mais intimista – com as demasiadas cores de sua capa presentes também nos tantos sons alegres e expansivos ao longo das 14 faixas (onze canções e três interlúdios). O single que anunciou o álbum, Every Teardrop is a Waterfall ilustra bem esse exagero não só em seu (lindo) videoclipe, mas também em versos como “Enquanto voamos, cada sirene é uma sinfonia e cada lágrima é uma cachoeira”. Mesmo com a balada Us Against the World, as canções de Mylo Xyloto conseguem soar ainda maiores que as de Viva la Vida, como Paradise, Charlie Brown e Don’t Let it Break Your Heart. A quantidade de informação visual presente em sua capa traduz perfeitamente a sensação feliz e densa de se ouvir o disco.

O próprio Chris Martin afirmou que a cada lançamento, a banda sente como se não conseguisse mais se superar no futuro, o que ajudou a reforçar os rumores que dizem que esse será o último trabalho deles juntos. Se esse for o caso, pelo menos podemos ter a certeza que o Coldplay trabalhou em uma discografia consistente dentro de uma jornada imagética que não apenas apóia seu som, mas nos ajuda a percebê-lo ainda melhor.

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One Comment on “A Jornada Imagética do Coldplay

  1. Adorei a matéria,era o quê eu estava procurando sobre eles!

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